sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Conheça a riqueza de culturas e influências do carnaval de rua em Pernambuco

O carnaval em Pernambuco tem uma essencial peculiaridade em relação aos demais focos de folia brasileira: a mistura. Primeiro, porque a base é a democracia das ruas: não existe pagamento de ingresso para curtir a festa. A massa está toda ali, compartilhando um pedacinho de chão atrás da troça, do bloco, do trio. A terra do maior bloco carnavalesco do mundo, o Galo da Madrugada, que arrasta mais de um milhão e meio de foliões no Sábado de Zé Pereira, tem no frevo, ritmo essencialmente pernambucano, o porta-estandarte de um festejo múltiplo, cheio de ritmos, agremiações e tradições diversas.
Além dos passistas de frevo e suas coloridas sombrinhas, é possível encontrar pelas ruas ao longo dos dias de Momo uma profusão de expressões populares, tal qual um caleidoscópio cultural. O iG apresenta alguns tipos de agremiações, numa miscelânea da heranças afro, indígenas e ibéricas, sempre presentes a cada ciclo carnavalesco.
Clube de Frevo
Originados entre associações de trabalhadores como comerciantes, capoeiras, ambulantes, etc, os clubes de pedestres serviam para que os sócios aproveitassem o Carnaval para fazer uma pausa no trabalho e cair na gandaia. Clubes tradicionais como Lenhadores, Vassourinhas ou Clube das Pás Douradas existem desde o início do século 20 e passaram a se chamar clubes de Frevo. O Galo da Madrugada é o símbolo-mor dos clubes de máscaras. Inaugurado em 1978, por um grupo de amigos cansado das festas fechadas em bailes de clubes sociais, começou a sair na aurora do carnaval com 75 pessoas.
Troça carnavalesca
As troças carnavalescas se assemelham aos clubes de frevo, mas são marcadas pela articulação comunitária e pela improvisação e irreverência. O termo “troça” remete a ridicularizar, escarnecer, e traz a irreverência na origem, quase sempre ligada a uma brincadeira entre amigos. Há sempre uma orquestra de frevo guiando o trajeto nem sempre organizado, mas sempre agitado. Nesse estilo, enquadram-se blocos famosos como os anárquicos Siri na Lata e Eu Acho é Pouco.
Bloco Lírico
Também chamado de bloco de pau e corda, o bloco lírico, ao invés de uma orquestra de frevo rasgado, com metais, é acompanhado por uma orquestra de pau e corda com instrumentos como banjo, violão, cavaquinho, bandolim, entre outros. São caracterizados ainda pela presença de um coro de vozes que entoa o chamado frevo canção, com melodia própria e letras poéticas. É o retrato de velhos carnavais, das indumentárias ao gracejo sonoro, evocando uma memória saudosista repleta de romantismo e lirismo. Agremiações como o Bloco da Saudade e Pierrot de São José perpetuam clássicos de Capiba e outros importantes compositores. São responsáveis por imortalizar hinos que se tornaram verdadeiros hits, como “Madeira que Cupim Não Rói”, grito de indignação do bloco Madeira do Rosarinho.
Clube de Bonecos
As figuras mais encantadoras do carnaval pernambucano, os bonecos gigantes, tradicionais nos desfiles nas ladeiras de Olinda, surgiram da influência ibérica de ritos pagãos europeus da Idade Média. Os grandalhões têm o status de abrir o carnaval Olindense. O Homem da Meia Noite é tão significativo para Olinda quanto o Galo da Madrugada simboliza o Recife. E sua formação familiar também tornou-se famosa, como a Mulher do Dia e o Menino da Tarde. Há bonecos com até 3,5 m de altura, que pesam em média 35 quilos para o carregador que os sustenta em meio à aglomeração de foliões.
Maracatu de Baque Solto
As coroações de reis e rainhas africanos, especialmente do Congo, inspiram a origem ritualística das nações de maracatu. Os rituais dos escravos do Brasil Colônia em homenagem a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, com desfile de gala de uma verdadeira corte, ganharam o carnaval na abolição da escravatura. Alguns deles, como Nação Elefante, Estrela Brilhante e Porto Rico, existem há séculos, literalmente. No cortejo, porta-estandarte, dama-do-paço (que segura a calunga, boneca sagrada para o candomblé), damas de frente, baianas, imperadores, duques, condes, marqueses e vassalos, entre outros, estão representados à frente dos batuqueiros. A bateria cadencia o ritmo com as alfaias, tambores retumbantes que ganharam o país com Chico Science e a Nação Zumbi.
Maracatu de Baque Virado
Todo mundo que já viu o carnaval pernambucano recorda da imagem de uma pesada e muito colorida vestimenta de fitas, lantejoulas e paetês agregadas a ganzás que fazem barulho conforme do movimento do dançarino, que leva nas mãos uma lança de fitas. O personagem, o caboclo de lança, é a essência do maracatu rural. Além dele, o cortejo traz as figuras de Mateus, Catirina, Burra e Caçador, também presentes em outros folguedos nordestinos como reisado e cavalo-marinho. Manifestação de origem afro-indígena, o Maracatu de Baque Virado é tradicional no campo, principalmente nas áreas canavieiras do Estado, como a Zona da Mata. Algumas agremiações são quase centenárias, como o Cambinda Brasileira, fundado em 1918.
Afoxé
Derivado do sudanês “àfohsheh”, o termo afoxé significa “encantamento, palavra eficaz, operante”. Assemelha-se ao maracatu nação, mas sem a corte. É ainda mais intimamente conectado às influências religiosas do candomblé. Geralmente conduzido por um babalorixá ou Ialorixá, as sedes funcionam em terreiros. Bailarinos são embalados por tambores e outros instrumentos percussivos. Alguns grupos trazem fantasias que representam os orixás. No Recife, são mais de 30 nações.
Caboclinhos
Mais indígena de todas as manifestações do carnaval pernambucano, os Caboclinhos apresentam homens, mulheres e crianças vestidos com plumas e paetês, além de atacas (pés e mãos), saiotes e tangas se referindo aos índios. As expressivas coreografias são marcadas pelo vigor do estalo de preacas (espécie de arco e flecha de madeira). Alguns grupos são ligados a cultos indígenas, como a pajelança.
Urso
Herança europeia da estreita relação com o animal, o Urso veio parar no carnaval com representatividade no imaginário popular. Da comunidade cigana à arte circense e mambembe, os ursos “amestrados” fazem parte da cultura brasileira. Nos festejos carnavalescos, Urso, Domador e Caçador brincam juntos e repetem indefinidamente o jargão “A La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro” (sovina), enquanto batem latas.
Boi de Carnaval
Figura de tantos folguedos populares, o boi não fica de fora na maior de todas as festas. O boi de carnaval, brinquedo derivado do bumba-meu-boi natalino, surge com irreverência e improviso, sem o enredo tragicômico do Auto de Natal. Mantém a tradição de apresentar o encontro de figuras humanas, animais e fantásticas, como Capitão, Mateus, Bastião, Catirina, Doutor, Burrinha, Babau, Jaraguá, Diabo, Morto-carregando-vivo e Caipora. Em Olinda, a Quarta-feira de Cinzas divide as atenções entre a troça Bacalhau do Batata e o Encontro de Boizinhos, nas ladeiras da Cidade Alta.

iG Recife | 09/02/2011 13:41

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