segunda-feira, 21 de março de 2011

Mais um texto sobre o bom racismo do Ziraldo

O bom racismo: - "meu marido é "preto" e eu fiquei "branca"!"


Quando Barthes* diz que "a fotografia de imprensa é uma mensagem", o que a foto abaixo pode nos dizer?

Esta foto foi publicada no jornais O Globo e Extra e na internet em 27 de fevereiro na matéria que noticiava o desfile de um bloco carnavalesco do bairro de Ipanema na zona rica da cidade do Rio de Janeiro e que fazia uma ironia da recomendação por um órgão do governo federal crítica ao racismo contido no livro infantil de Monteiro Lobato "Caçadas de Pedrinho" adotado pela rede de ensino.

Mulher expõe cartaz onde se distingue - por seus cabelos alisados e aloirados - do marido negro na forma indireta de praticar o racismo que Lobato propôs e que Ziraldo celebra como o bom racismo, o "racismo sem ódio"

A cena fotografada em que pese a pose para o fotógrafo poderia ter sido feita em qualquer dia de sol ou festivo na orla da zona sul do Rio local privilegiado para um certo tipo de publicidade já que se apresenta como uma vitrine para seus próprios moradores, turistas e para a mídia.

O desfile carnavalesco era do bloco "Que merda é essa!?", um bloco de amigos de praia e de bar os locais onde negros e brancos podem confraternizar a "democracia racial brasileira" especialmente no Carnaval como no futebol.

As relações raciais no Brasil tem regras particulares próprias de uma cultura em que os afrodescentes tem em geral consciência de seu lugar subalterno na sociedade fixados seus espaços subliminarmente pela educação e da mídia como propôs Monteiro Lobato em sua obra.

Quando o também escritor e desenhista Ziraldo colocou na camiseta do bloco carnavalesco a figura de Monteiro Lobato num abraço feito à uma mulher negra estereotipada na figura da mulata de biquini quis ele segundo suas próprias palavras demostrar que o racismo é uma brincadeira Mas se fosse apenas uma brincadeira suas consequencias não seriam tão nefastas para a autoestima do negro nem a justificativa de Ziraldo possivelmente seria a de que o racismo brasileiro é um racismo "sem ódio".

Ziraldo consegui com isso formular algo inédito sobre o racismo praticado no Brasil e ao mesmo tempo levar às últimas consequencias o postulado de Lobato que dizia que a "escrita" era um processo indireto de fazer a eugenia no Brasil e muito mais eficiente, assegurava Lobato. Dessa forma Ziraldo agiu como Lobato e como de resto toda a mídia, a publicidade, e outras "escritas" que reproduzem o repertório de representações que estereotipam o negro num processo de apagamento de sua identidade, de redução de sua autoestima e por consequencia de sua humanidade.

Dessa forma é que a foto publicada pelo O Globo pode ser observada como uma reafirmação do princípio de desumanização do negro através da liquefação da sua identidade reduzida a traços físicos e passível de apagamento como faz a mulher que ao apresentar o marido como "preto" tentando apagar seus próprios traços físicos étnicos-raciais.

Os alisamentos e aloiramento dos cabelos servem como resposta e evidência de uma escolha ou de uma possibilidade que os tratamentos cosméticos oferecem de mudança da aparência para complementar o apagamento já iniciado pela educação escolar que não possui ferramentas e profissionais de ensino capacitados para lidar com a diversidade étnica-racial e cultural do país.

Este legado foi a contribuição de Monteiro Lobato com a sua literatura infantil e sua tentativa de perpetuação nas escolas públicas e programas infantis de televisão onde se encontram as maiores referências de sua simbologia pró eugenia.

*Barthes, Roland, semiólogo e filósofo francês.

Fonte: oglobo.globo.com
Postado por Ricardo
Marcadores: beleza, lei contra o racismo, Monteiro Lobato

Publicado no blog - http://belezasnegras.blogspot.com/2011/03/o-bom-racismo-meu-marido-e-preto-e-eu.html. Acesso em 21/03/2011.

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