quinta-feira, 5 de maio de 2011

Lutando a boa luta - III

Alceu Valença defende Chico César e diz que luta pelo forró faz Gonzagão dormir em paz



O Forró Vivo!


Vejo com muito bons olhos – olhos atentos de quem há décadas

observa os movimentos da cultura em nosso país – a iniciativa do

Secretário de Cultura do Estado da Paraíba, Chico César, de “investir

conceitualmente nos festejos juninos”, segundo comunicado oficial

divulgado esta semana. Além de brilhante cantor e compositor, Chico

tem se mostrado um grande amigo da arte também como um dos maiores

gestores da cultura desse país.

A maneira mais fácil de dominar um povo – e a mais sórdida também

– é despi-lo de sua cultura natural, daquilo que o identifica enquanto

um grupamento social homogêneo, com linguagens e referências próprias.

Festas como o São João e o carnaval, que no Brasil adquiriram status

extraordinariamente significativo, tem sido vilipendiadas com a adesão

de pretensos agentes culturais alienígenas mancomunados com políticas

públicas mercantilistas sem o menor compromisso com a identidade de

nosso povo, de nossas festas, e por que não, de nossas melhores

tradições, no sentido mais progressista da palavra.

Sempre digo que precisamos valorizar os conceitos, para que a arte

não se dilua em enganosas jogadas de marketing. No que se refere ao

papel de uma secretaria ou qualquer órgão público, entendo que seu

objetivo primordial seja o de fomentar, preservar e difundir a cultura

de seu estado, muito mais do que simplesmente promover eventos de

entretenimento fácil com recursos públicos. É preciso compreender esta

diferença quando se fala de gestão de cultura em nosso país.

Defendo democraticamente qualquer manifestação artística, mas

entendo que o calendário anual seja largo o suficiente para comportar

shows de todos os estilos, nacionais ou internacionais. Por isso apóio

a iniciativa de Chico em evitar que interesses mercadológicos enfiem

pelo gargalo atrações que nada tem a ver com os elementos que fizeram

das festas juninas uma das celebrações brasileiras mais reconhecidas

em todo o mundo.

Lembro-me que da última vez que encontrei o mestre Luiz Gonzaga,

num leito de hospital, este me pedia aos prantos: “não deixe meu

forrozinho morrer”. Graças a exemplos como o de Chico César, o velho

Lua pode descansar mais tranquilo. O forró de sua linhagem há de

permanecer vivo e fortalecido sempre que houver uma fogueira queimando

em homenagem a São João.

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