sexta-feira, 27 de maio de 2011

10ª Festa da Igreja N Sra do Rosário dos Homens Pretos da Penha


Movimento Cultural Penha
CNPJ: 04.632.499/0001-00
R Pio X, 15 / Penha
CEP 03632-070 / São Paulo – SP
Telefone: 11 2306-3369

II Semana da Sustentabilidade – Cultura é ser consciente.

Debates, oficinas e exposições.

30/5 a 5/6.

Livraria Cultura Bourbon Shopping São Paulo

Simone Ancelmo homenageia a cantora Clara Nunes


27/05 – 21h.
Teatro do SESC Santos.
R. Conselheiro Ribas, 136 - Bairro Aparecida - Santos-SP.
Grátis.

Ô sorte ou, ÔÔÔÔÔ Azar?

Wilson das Neves (Ô Sorte!) é o convidado dos Inimigos do Batente (Ô Azar!).
27/5 - 22h.
Rua dos Italianos, 1261 - Bom Retiro - SP.
Couvert - R$15,00.
Tel.: 3361-1799

2ª MOSTRA ITINERANTE DE FOTOGRAFIAS EM DIREITOS HUMANOS - 2011

Inscrição - até dia até 07 DE AGOSTO DE 2011.

Nesta edição serão recebidas fotografias alusivas à Declaração Universal do Direitos Humanos, caracterizando:

a) uma situação que demonstre o esforço para a efetivação de um dos
direitos humanos;
b) ou uma situação de violação de um destes direitos.


Regulamento e a Ficha de Inscrição:
http://www.oedh.unesp.br
oedh@unesp.br

OEDH - OBSERVATÓRIO DE EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS / Unesp
Av Eng Luiz Edmundo Carrijo Coube, nº 14-01 - Vargem Limpa
CEP 17.033-360 - Bauru-SP
Tels. (14) 3103 6172  / 9761 4100

Novo Código propicia a devastação ambiental, destruição das matas e a qualidade de vida no Brasil

Enquanto isso na Câmara dos Deputadoss..





quinta-feira, 26 de maio de 2011

103ª Edição do Projeto Rua do Samba Paulista

Você não pode perder!!!!

Em sua 103ª  Edição o Projeto Rua do Samba Paulista recebe a Bateria e a Velha Guarda do G.R.C.E.S. Unidos do Peruche e a Velha Guarda do G.R.C.E.S. Mocidade Alegre.

Sábado - 28/05/2011.

Horário - 15h00/21h00

Local: Boulevard da Avenida São João - Anhangabaú/SP (No calçadão ao lado do Prédio dos Correios).

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Veja que maravilha - Nordeste Nº 101

Foi por nossa região,
Onde tudo começou,
Por onde Cabral chegou,
E se deu o descobrimento,
Depois do acontecimento,
Primeira missa ocorreu,
Desse jeito aconteceu,
No ano de mil e quinhentos,
Escrito nos documentos,
Foi o que Caminha escreveu.

Nove estados nós contamos,
Cada um mais precioso,
O Nordeste é grandioso,
Também na sua extensão,
Pois a nossa região,
Em tamanho é a terceira,
Mas se fizer um fileira,
Do tanto que tem de gente,
Pois verá rapidamente,
Só perde para a primeira.

O Rio Grande do Norte,
Paraíba e Ceará,
Piauí é mais pra lá,
Tem Sergipe e Maranhão,
Preste bastante atenção,
Pernambuco é alegria,
Alagoas e Bahia,
O Nordeste tá completo,
De riqueza é repleto,
Tem sonho, tem fantasia.

Natureza exuberante,
Por tudo que é lugar,
Não dá pra imaginar,
O Brasil sem o Nordeste,
Pois seria um escrete,
Sem o craque, sem Pelé,
Já sentiu como é que é?
Toda a sua importância,
De tamanha relevância,
Da cabeça até o pé.

O Atlântico banha todos
Os estados nordestinos,
Pois no mapa onde vimos,
Da Bahia ao Maranhão,
Causa até repercussão,
A beleza natural,
É destaque regional,
De tanta coisa bonita,
É colírio para vista,
No mundo não tem igual.

Produz sal e açúcar,
Petróleo em terra e mar,
E se você comparar,
A riqueza que aqui tem,
Irá muito mais além,
Tem o belo e o natural,
Com o turismo local,
Gera renda evidente,
Nordestino é contente,
Como ele, sem igual.
E quatorze são os polos,
Turísticos da região,
De cada federação,
Inúmeros são atrativos,
Destinos alternativos,
Que só tem neste lugar,
Nordeste é de orgulhar,
Litoral? É a que mais tem,
A beleza que faz bem,
Desculpa aí esnobar!

São três mil quilômetros,
De extensão o litoral,
Nordeste, fenomenal,
Todos estados tem praia,
Faz bem sair da tocaia,
E tomar banho de mar,
Pra poder se refrescar,
Pois é sol o ano inteiro,
De janeiro a janeiro,
Vem gente de todo lugar.

A caatinga é bioma,
Nosso exclusivamente, (do Brasil)
E sendo correspondente,
Um pouco mais da metade,
Com minuciosidade,
Do Nordeste brasileiro,
Parte do estado mineiro, (norte)
Com capricho, se apresenta,
Assim sendo representa,
Diante desse roteiro.

De grande variedade,
A cobertura vegetal,
Um presente especial,
Das dunas, Mata Atlântica,
A Floresta Amazônica,
Tem Cerrado, tem cocais,
Caatinga, manguezais,
Coisa linda de se ver,
Como posso esquecer,
Sempre tão presenciais.

E lembrar do meu Nordeste,
É lembrar da aroeira,
Macambira, catingueira,
Mandacaru, umbuzeiro,
Xiquexique, de facheiro,
É Babaçu, mangabeira,
É Jurema e cajazeira,
É Pau-ferro e juazeiro,
É Pau-darco e cajueiro,
Tem carnaúba e faveira.

Os rios são atrativos,
São Francisco, Parnaíba,
E antes que você me diga,
Piranhas-Açu, Jaguaribe,
O Una, tem Capibaribe,
São os rios principais,
E também tem muito mais,
Contas, Mearim, Grajaú,
Potengi, Paraguaçú,
Acaraú é demais!

As usinas hidrelétricas,
Produzindo energia,
É de grande primazia,
Paulo Afonso, sobradinho,
Pois alerto com carinho,
O potencial da Xingó,
Tem ainda a Moxotó,
De tamanha geração,
Forte participação,
No Nordeste é xodó.

Áreas de intensa dinâmica,
Forte modernização,
Indústria, de produção,
Petroquímico, e tem mais, (Camaçari/BA-Guamaré/RN)
Polos agroindustriais, (Petrolina-Juazeiro)
Mineral no Maranhão,
Agricultura de grão, (PI-BA-MA)
Agricultura irrigada, (CE-RN)
Pecuária acentuada, (PB-PE-AL)
Têxtil e confecção. (CE)

Tem a bacia leiteira, (Alagoas)
Polo de fruticultura, (Açu-Mossoró/RN)
O Nordeste é moldura,
Em Sergipe, a citrícola,
Na área dessa agrícola,
Laranja, tem produção,
E o polo de irrigação,
No oeste paraibano,
Lá o coco é soberano,
De tão grande proporção.

E são muitos municípios,
Mais de mil e setecentos, (1.793)
Mais ainda argumentos,
A sua organização,
E numa contemplação,
Que fazem por merecer,
No Nordeste você ver,
Do belo, do natural,
Ou mesmo artificial,
Do jeito que se escolher.


Autor: cordelista Hailton Mangabeira

Cordel, Cultura Popular. Mangabeira-Macaíba/RN
Aluno de Licenciatura em Geografia do Polo de Nova Cruz

Hailton Mangabeira(Hailton Alves Ferreira), nascido em Macaíba/RN no dia 09 de Janeiro de 1973. Filho mais novo dos onze filhos de de Manoel Francisco Ferreira e de Josefa Alves de Medeiros Ferreira. Graduado em Pedagogia e Especialista em Educação, atualmente aluno de Geografia da UFRN. Professor da rede pública. Já possui 102 Cordéis publicados. O nome artístico é uma homenagem a Mangabeira, comunidade rural de Macaíba/RN.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Abdias Nascimento: uma vida inteira de combate ao racismo

Miriam Leitão

Uma vez, numa entrevista que me concedeu, Abdias Nascimento disse que ele foi preso, enquadrado na Lei de Segurança Nacional, viveu no exílio por 10 anos, sem ter nunca integrado qualquer partido clandestino de combate à ditadura.

- Tudo o que eu fiz foi combater o racismo.

Era uma forma de mostrar que esse tema sempre foi tratado como inconveniente. Na ditadura, era proibido. Isso era subversivo o suficiente para os ditadores da época. Hoje ainda é delicado e difícil. Sua vida foi dedicada a tratar desse assunto intratável.

Como jornalista, teatrólogo, escritor, cineasta, artista plástico, senador, militou na mesma causa: construir um país realmente multiracial com a derrubada, de fato, de todas as barreiras que impedem a ascensão dos negros no Brasil.

Não um país que finge não ver as diferenças para proclamar a igualdade, mas o que constrói as pontes fortalecendo a autoestima dos pretos e pardos brasileiros e abrindo oportunidades. Foi por esse Brasil que Abdias lutou.

Abdias abriu espaços notáveis na cultura brasileira para essa sociedade com a qual sonhou por tanto tempo. Quilombo era um jornal dos anos 1950 que abriu a discussão do combate ao racismo. O Teatro do Negro foi outra iniciativa pioneira que revelou inúmeros talentos para a dramaturgia brasileira, numa época em que atores brancos pintavam o rosto de preto para fazer os papéis de negros. Na militância foi um dos fundadores do Movimento Negro Unificado.

As conversas com ele e sua mulher Elisa Larkin, americana de nascimento, eram sempre ricas de reflexões sobre velhos vícios do Brasil, como o de negar o problema.

Nos últimos anos ele viu duas notícias. A boa é que é visível a formação da classe média negra e do aumento do poder de pretos e pardos no Brasil. A ruim é que as distâncias permanecem enormes e uma parte do país prefere não discutir o tema, insiste em ficar em atalhos que fogem da questão central. A desigualdade racial ainda é enorme no Brasil.

Outro dia fui ao Sindicato dos Jornalistas do Rio no lançamento do Prêmio Abdias Nascimento. Sindicato ao qual ele se filiou em 1947.

Ele já estava doente, mas a cerimônia aconteceu ainda assim. Lá eu disse que Abdias, que tinha 97 anos, foi precursor e persistente no mesmo sonho ao longo da vida inteira: a de combater o racismo em todas as suas formas.

Fará falta Abdias, mas quem sonha com um Brasil de menos desigualdades, sabe que ele combateu o bom combate.

Fonte: http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2011/05/24/abdias-nascimento-uma-vida-inteira-de-combate-ao-racismo-382348.asp

Abdias do Nascimento, faleceu na noite desta segunda-feira

Abdias do Nascimento (Franca, 14 de março de 1914) é ex-político e ativista social brasileiro. É um dos maiores defensores da defesa da cultura e igualdade para as populações afrodescendentes no Brasil,
intelectual de grande importância para a reflexão e atividade sobre a questão do negro na sociedade brasileira.

Teve uma trajetória longa e produtiva, indo desde o movimento integralista, passando por atividade de poeta (com a Hermandad, grupo com o qual viajou de forma boêmia pela América do Sul), até ativista do Movimento Negro, ator (criou em 1944 o Teatro Experimental do Negro) e escultor. Após a volta do exílio (1968-1978), insere-se na vida política (foi deputado federal de 1983 a 1987, e senador da República de 1997 a 1999), além de colaborar fortemente para a criação do Movimento Negro Unificado (1978). Em 2006,em São Paulo, criou o dia 20 de Novembro como o dia oficial da consciência negra. recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Brasília[1]. É autor de vários livros: “Sortilégio”, “Dramas Para Negros e Prólogo Para Brancos”, “O Negro Revoltado”, e outros[2]. Foi Professor Benemérito da Universidade do Estado de Nova York e doutor “Honoris Causa” pelo Estado do Rio de Janeiro, grande militante no combate à discriminação racial no Brasil[3].

Regional Imperial

Regional Imperial encerra nesta quarta-feira (25/05) sua festejada temporada na Galeria Olido, que ocorreu todas as quartas de maio, sempre às 19h.


Nesta última exibição, o conjunto receberá o excelso flautista Márcio Modesto e o cantor Roberto Seresteiro.

O repertório da noite estará recheado de choros, maxixes, valsas, serestas, sambas e sambas-canções de compositores de fina estirpe, tais como Herivelto Martins, Pixinguinha, Noel Rosa, Altamiro Carrilho, Benedito Lacerda, Silvio Caldas, entre outros monstros sagrados.
Galeria Olido
Avenida São João, 473 - Centro de São Paulo (próximo ao Metrô São Bento).
Quarta-feira (25/05)
Entrada Franca
Informações: (11) 3331-8399

Adriana Moreira homenageia a cantora Clara Nunes

Adriana Moreira homenageia a saudosa cantora Clara Nunes
Terça-feira (24/05),
SESC Consolação - 15h.
Entrada Franca.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

II Seminário sobre a Atenção à Saúde da População Negra

Local: Aliança Francesa
R.General Jardim, 182 - Vl.Buarque
Dia 24/05/11.
Horário: das 8:00 às 17:00h

GRIOT: CULTURAS POPULARES, DIÁSPORA AFRICANA E EDUCAÇÃO

Novo Grupo de Pesquisa da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia.

Lançamento - 25 de maio (quarta-feira

I Festival de Cinema Alternativo de Santa Izabel do Pará

23 a 26 de Junho

Realização:

Grupo_underline.

Pingo Produções

Muirakitam Produções

Workshops, oficinas de cinema, mostra de curtas e premiação dos melhores trabalhos inscritos

Local: Colégio Silvio Nascimento.

Inscrições: http://festcinesipa.blogspot.com

Belém - Travessa Nove de Janeiro, 2007.

G.R.C.E.S. Tom Maior de Luto

Tom Maior de Luto: Marko Antonio da Silva, de 44 anos, estava com leucemia.


Ele era presidente da agremiação desde os 17 anos.

Saci-Pererê X Mula-Sem-Cabeça

Escrito por Jesus Karlo - 07-MAI-2011

O vilarejo com seus pacatos moradores ocupava uma pequena parte da floresta; lá eles tinham quase tudo para suprir suas necessidades, a capela ficava bem no centro da vila, do lado direito o seu Moises aproveitou sua grande varanda e montou uma barbearia; do lado esquerdo era o "Bazar da Verinha", ali a gente encontrava vários tipos de papel, muitos modelos de lápis e canetas, alguns estojos de madeira bem bonitinhos e várias outras miudezas características de um bazarzinho de vilarejo. Em frente à capela uma pracinha alojava uns poucos bancos dispostos num humilde espaço entre algumas árvores, isso dava um aspecto pitoresco ao lugar. Atravessando a praça e a rua, de frente para a capela, ficava o armazém do turco Abdala, lá sim tinha de tudo mesmo, desde coisas de comer até roupas, ele só não vendia material escolar para não competir com a Verinha. Os moradores se davam bem, era coisa rara ver uma discussão, briga mesmo eu nunca vi, se bem que eu só tinha nove anos, contudo nunca ouvi meus pais falarem de briga. Assim, os moradores do vilarejo iam levando suas vidas, bem sossegados.

Aquele dia amanheceu nublado, as nuvens que cobriam o céu eram cinzentas e durante todo o dia não deixaram o sol aparecer, mesmo assim não estava frio, o clima era morno, até um pouco abafado; no finalzinho da tarde começou um ventinho que foi progredindo aos poucos. Os mais velhos começaram a prognosticar chuva, parecia mesmo, todo aquele vento que aumentava mais e mais a cada momento indicava um belo temporal. Entretanto não foi o que aconteceu, não senhor, com a proximidade da noite, sabe o que sucedeu? Uma coisa incrível: o vento forte rapidamente espalhou as nuvens e de um momento para outro a noite ficou clara, uma lua cheia e esplendorosa mostrou-se, prateando todo o vilarejo, deixando as pessoas abismadas com a mudança repentina.

Entre oito ou nove horas os moradores se preparavam para dormir, pois, como é costume nesses lugares, o povo dorme cedo e acorda cedo, todavia, há sempre os que gostam de esticar mais um pouco, aproveitar momentos que podem ser agradáveis. A lua clareava tudo, os que permaneceram acordados ficaram conversando, falando amenidades e rindo do acaso, uma descontração; a maioria era jovem, e a lua irradiava-lhes mais energia; eu pedi a meus pais para ficar com o primo Juca que tinha dezessete anos. Alguém agitou fazer uma fogueira ao lado da praça; não demorou e a fogueira crepitava sob a luz do luar, o papo rolava solto, uns poucos "tiozinhos" observavam contentes o desenrolar dos acontecimentos e assim a noite prosseguia descontraída.

Lá pelas tantas alguém se levantou abanando os braços e fez um "chchch!" com um dedo em riste próximo aos lábios pedindo silêncio. O gesto foi imitado por alguns, em instantes todos estavam quietos tentando entender o que se passava. Ouviu-se ao longe um tropel e um relincho forte, as atenções se voltaram para o lugar de onde vinha o barulho, então numa colina próxima, eles avistaram um clarão e um grande cavalo empinando e agitando as patas da frente alucinado, o clarão eram labaredas que saiam de onde deveria ser a cabeça do animal, em seguida como uma fera assustadora, ele partiu em disparada na direção do vilarejo. As pessoas, sem esperar nem um segundo, fugiram assustadas para seus casebres, eu e o primo Juca também corremos como o vento cada um para sua casa; entrei e bati a porta desesperado, na rua não sobrou viv'alma pra contar a história; a fogueira ficou queimando sozinha demonstrando o medo provocado pela horrenda criatura que se aproximava.

Meus pais acordaram com o barulhão que eu fiz ao bater a porta e vieram ver o que eu estava espiando pelas frestas da janela, uniram-se a mim e juntos vimos uma negra figura mística chegar. Soltava relinchos apavorantes e chamas por onde deveria estar a cabeça.

_ É a Mula-sem-cabeça! - Disse minha mãe com os olhos esbugalhados.

Meu pai correu e passou a taramela na porta; lá fora a Mula-sem-cabeça alvoroçava-se em uma performance infernal. Dava coices, relinchava e soltava labaredas; jogou-se contra a fogueira espalhando tudo com patadas e coices, depois deu uma última empinada e saiu galopando pro meio da floresta queimando tudo por onde passava até sumir na escuridão. Eu era todo medo, tremia igual vara verde, custei a pegar no sono.

No dia seguinte, a aparição da Mula-sem-cabeça era assunto em todas as bocas, para qualquer lugar que se fosse ouvia-se a mesma coisa, embora as pessoas falassem baixo, olhando pros lados, acho que com medo da Mula ouvir.

Era período de férias escolar por isso eu não tinha muito o que fazer, tomei um bom café da manhã, com leite tirado na hora, toucinho defumado no fogão de lenha, omelete com ovos que eu mesmo peguei no quintal, pão e manteiga feitos em casa, depois deste repasto fui brincar; notei que não era só eu que estava assustado, meus coleguinhas também, estavam, nenhum quis brincar de bandido e mocinho pro meio do mato como sempre fazíamos em tempos mais normais, de esconde-esconde então nem pensar, ninguém queria saber de ficar escondido na mata sozinho, acabamos brincado de bolinhas de gude ou de rodar pião; à tarde também ficamos brincando por perto, se arriscar a ir na lagoa ou apanhar frutas na mata, estava fora de cogitação, todos com medo da Mula-sem-cabeça que poderia estar escondida em qualquer lugar.

Comecei a caminhar sozinho com as mãos no bolso, quando do nada vi surgir um redemoinho, acompanhei com a vista e notei que ele entrou no mato, eu fui atrás, o pequenino ciclone rodopiava por entre o arvoredo, estava indo pros lados da lagoa, mais na frente havia uma clareira e bem no centro dela uma figueira alta, frondosa, com galhos robustos, tinha uma copa imensa que em dia de sol dava uma sombra gostosa, parte da copa cobria um pedacinho da lagoa.

Bem... o fato é que ao chegar debaixo da figueira, o redemoinho levantou uma porção de folhas, girou rápido agitando todas elas e foi parando aos poucos. Eu fiquei ali, vendo o momento encantando e fui percebendo que conforme a poeira baixava ia aparecendo de dentro dela uma figura, era um moleque pretinho com um capuz ou touca vermelha, trajava uma camisa rota e um calçolão com suspensórios, logo me escondi, ele estava de lado para mim, enfiou a mão no bolso e puxou um cachimbo, ajeitou o fumo batendo com o dedo e acendeu. Sabe que eu não sei como foi que ele acendeu?! Nem dava pra ver o que ele estava segurando, o certo é que ele acendeu o cachimbo. Deu umas baforadas e um pulo ficando de frente para a lagoa e de costas para mim. Aí eu tive a certeza, pelo que ouvira dos mais velhos contarem, era o Saci-pererê, ele só tinha a perna esquerda. Quando pensei em ir embora ouvi uma voz de moleque travesso:

_ He! He! O que foi, ficou com medo?

Eu olhei assustado. "Com quem será que ele está falando?" Aí ele deu outro pulo e ficou de frente para mim.

E aí garoto?! Pode sair daí, vem pra cá, vem! Não precisa ficar com medo não.

Eu fiquei um tanto atônito, mas reunindo coragem, aos poucos foi saindo detrás da moita.

_ Achegue-se, vem pra cá!

Devagarinho e com um pouco de receio eu foi me aproximando.

_ Você ia nadar aí na lagoa, é?

_ É... não!

_ Como é que é?! Ia nadar ou não ia?

_ Eu ia, mas é que fiquei com frio. - Argumentei.

_ Eu acho que você estava é me seguindo. Mas não tem problema não. Eu gosto de criança curiosa.

_ Não, não estava seguindo não. Acho até que vou dar um mergulho.

E fui mesmo. O Saci veio junto comigo, pulando. Cheguei na beira da lagoa e tirei a roupa, fiquei só de cueca.

_ Você não vai entrar também?

_ Não, não, hoje não estou com vontade.

Nem liguei, molhei o dedão do pé na água para sentir se não estava fria e dei um mergulho. Emergí mais pra frente dando umas braçadas, ao me voltar não vi mais o Saci; nadei de volta e saí da água, um ventinho me arrepiou, procurei minhas roupas, mas que nada; foi o Saci, o malandro havia levado minhas roupas, tive que ir pra casa me escondendo pela mata para que ninguém me visse.

Quando o sol se aproximou do horizonte os trabalhadores, que faziam serviços em roças e fazendas das redondezas, começaram a chegar em seus lares. Todos vieram cedo, não era bom que a noite chegasse e encontrasse alguém caminhando pela estradinha. Anoiteceu de mancinho, naquele dia não houve vento nem nuvens a lua e as estrelas logo apareceram deixando a noite clara, melhor assim, pois os lampiões das ruas que estavam acesos na noite anterior, foram quebrados pelos coices da Mula. Algumas pessoas ainda tiveram coragem de formar dois ou três grupinhos para ficar conversando um pouco, no entanto, por volta das sete horas já não se via mais ninguém.

O tempo passava lentamente, os minutos se arrastavam devagar formando as horas, de repente ouviu-se outra vez o tropel: "Pocotó! Pocotó! Pocotó!..." Relinchos fortes e assustadores chegaram aos ouvidos daqueles que teimaram em ficar acordados. Meu sono estava leve, assim, logo que ela chegou fazendo toda aquela balbúrdia, acordei de vez. Os mais valentes e curiosos espiavam pelas frestas e puderam ver a besta. Como uma entidade demoníaca, ela pulava, relinchava, escoiceava o ar e soltava fortes labaredas como se estivesse enfrentando mil demônios, os relinchos saiam pelo mesmo lugar que saia o fogaréu, pois ao relinchar as chamas aumentavam produzindo uma infinidade de centelhas. A cena congelava o sangue até do mais intrépido dos observadores, era uma coisa aterrorizante, o medo dominava ao ponto da gente nem conseguir se mexer; eu fiquei ali olhando até a hora em que a danada, talvez já satisfeita, se retirou correndo mata afora, escoiceando, relinchando e soltando fogo pra todo lado. O silêncio imperava na vila, aos moradores não restava nada a não ser resignarem-se e dormir, pedindo a Deus para que aquilo não se repetisse novamente.

No outro dia levantei tarde, a noite passada só consegui pegar no sono altas horas; sai para brincar, encontrei meus amiguinhos todos jururus, as poucas brincadeiras não passavam dos limites do vilarejo, não tive nem entusiasmo para me juntar a eles; andei um pouco e depois decidi ir até a lagoa. Não chamei ninguém, tão pouco comentei sobre o Saci, embora o episódio ainda estivesse bem claro em minha mente, não estava com medo dele, por sinal queria até encontrá-lo para passar-lhe uma reprimenda por ter sumido com minha roupa. Cheguei na lagoa e tirei as vestes, estava meio arisco, como sempre molhei o dedão do pé, dei uma boa olhada em volta mas não vi nada. Mergulhei emergindo rápido e já olhei para beira da lagoa, lá estava ele, pertinho de minhas roupas com seu cachimbo na boca, pulando e rindo que nem criança quando faz arte. Sem tirar os olhos dele, nadei em direção à borda.

_ E aí garoto, está mais esperto hoje, hem! He! He! He!

Saí da água, mas não falei nada da roupa que sumiu na tarde passada, me vesti e sentei no barranco cabisbaixo.

_ O que foi? Parece que você está meio triste.

_ É...

_ Fala aí, o que aconteceu?

Pensei um pouco e acabei chorando as mágoas.

_ Sabe o que é seu Saci, é que eu "tô" com medo da Mula-sem-cabeça.

_ Mula-sem-cabeça?! Mas por que, ela tem aparecido por estas bandas?

_ Tem sim! De noite...

Então eu contei das duas aparições seguidas que a Mula fez, quebrando tudo que encontrava pela frente e assustando todo mundo lá no vilarejo.

O Saci ficou bem sério e disse:

_ Olha aqui garoto, gostei de você! Vou te ajudar. Essa tal de Mula-sem-cabeça é muito metida, vive por aí apavorando todo mundo, mas eu sei bem como lidar com as gracinhas dela. O negócio é o seguinte, hoje a noite se ela aparecer, você pega um punhado de cinza, sopra no ar e diz: "Me ajuda Saci!" Três vezes, fale antes que toda a cinza caia no chão, então pode deixar tudo comigo.

Depois ele conversou mais um pouco, fez umas diabruras e desapareceu na floresta no meio de um redemoinho.

Fui embora mais esperançoso. "Será que o Saci vai fazer alguma coisa mesmo?" Cheguei em casa e desta vez contei tudo o que tinha acontecido pro meu pai e pra minha mãe, eles ficaram espantados, entreolharam-se; minha mãe se aproximou de mim e me abraçou, meu pai veio logo atrás, a nós só restava a esperança.

Quando a noite chegou, trouxe com ela nossos temores. Os lampiões da praça haviam sido restaurados pelos moradores e estavam cheios; não faziam muita luz, contudo, ajudados pela lua cheia, dava-nos uma ilusão de segurança. A maioria dos habitantes puseram um lampiãozinho pendurado pro lado de fora de casa. Nessa noite a vila ficou mais clara que de costume, era tudo silêncio, no ar fluía uma apreensão vivida por todos. O tempo foi passando... bem devagar... embora só ouvíssemos os sons da mata, eu não conseguí nem cochilar, meus sentidos estavam a mil, em alerta máxima. Após um bom tempo meu pai cochilou na cadeira apoiado na mesa, minha mãe tinha se retirado cedo, então eu ouvi, ou melhor, deixei de ouvir o barulho da mata, os grilos ficaram quietos, não se ouvia mais o coaxar dos sapos, nem um piado de alguma ave noturna, nada. Ao longe começou-se a ouvir o som conhecido: "Pocotó! Pocotó! Pocotó!..."

Cada vez mais perto, os terríveis relinchos chegavam aos nossos ouvidos dando a certeza agora de que era ela mesma que se aproximava. Os que tiveram coragem de olhar puderam ver a Mula-sem-cabeça. Mesmo para quem já tinha visto era muito tenebroso, o medo era tanto que petrificava a pessoa, é sim, a gente não conseguia nem se mexer; quando eu a vi quebrando as luzes, avançando nos casebres, escoiceando que nem louca, me lembrei que precisava fazer uma coisa; corri até o fogão de lenha, peguei um punhado de cinza e soprei no ar, ato contínuo falei:

_ Me ajuda Saci! Me ajuda Saci! Me ajuda Saci!

Antes que toda a cinza caísse no chão formou-se um redemoinho e do meio dele saiu o Saci-pererê. Surgiu dentro da minha casa, rodopiando e dando um riso debochado. Meu pai correu para a porta do quarto assustadíssimo, sua expressão era de espanto total; eu sabia que minha mãe devia estar assustada também.

_ He! He! He! Olá garoto! Quer dizer que me chamou mesmo, não é?! E cadê a tal Mula?

Não precisei nem responder, nesse instante a Mula-sem-cabeça relinchou e escoiceou o lampião que deixamos pendurado pro lado de fora e deve ter acertado a parede também que sendo de taboas fez um baita barulhão.

Calmamente o Saci tirou seu cachimbo do bolso, desta vez eu pude ver claramente que ele só estalou os dedos e uma chama apareceu em seu polegar, de modo natural ele botou fogo no fumo e soltou umas baforadas.

_ He! He! Agora pode deixar comigo!

Deu uma mexidinha em seu capuz e desapareceu, em seguida ouvimos sua risada do lado de fora, corri a olhar pelas frestas e lá estava ele, bem atrás da Mula. Quando ela ouviu a risada do Saci, virou-se pro lado dele e relinchou soltando uma rajada de fogo, mas o Saci, muito esperto, tocou no capuz e desapareceu antes que as chamas o atingissem, aparecendo novamente atrás da Mula. Ela ficou doida e mais brava ainda, escoiceava e soltava fogo em cima do Saci, mas ele sempre desaparecia e reaparecia atrás dela, dando risadas e soltando baforadas de fumaça. Aos poucos a Mula-sem-cabeça foi se cansando; num dado momento o Saci, que sempre estava atrás dela, deu um salto e montou em seu lombo; mesmo com uma perna só ele era um exímio cavaleiro, por mais que a Mula saltasse, se contorcesse, fizesse mil peripécias, não conseguia derrubá-lo. Ele segura firme em seu pescoço, com muito cuidado para que as chamas não lhe atingissem. A Mula tanto fez que não aguentou mais, acabou saindo em disparada para o meio da floresta soltando relinchos que pareciam gritos tenebrosos levando o Saci agarrado em seu dorso.

Depois daquela noite a Mula-sem-cabeça nunca mais veio ao nosso vilarejo e até hoje eu agradeço ao Saci, que de vez enquanto aparece por lá pra falar com qualquer garoto que tenha coragem.

Atualizado em (07-Mai-2011)

FONTE: http://ondalatina.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=384&Itemid=58

Os Manos de Alá

Uma outra visão do islamismo pela ótica dos brasileiros que aderiram a essa religião.


Direção e fotografia: Luiz Carlos Lucena
Produção e Edição: Brother Filmes
Trilha sonora: Mouna Amari (Tunísia), cantos e orações islâmicos
Matilha Cultural
Rua Rego Freitas, 542 (Vila Buarque)
Terça-feira, dia 31 de maio, às 20 horas
Entrada franca.

Exposição Arte al Paso

Em cartaz até 3/07/11.

100 trabalhos de 36 artistas que integram a Coleção do Museo de Arte Contemporânea de Lima - MALI, como pinturas, esculturas, vídeos e fotografias. Esta é a primeira vez que parte da coleção de arte contemporânea do MALI será exposta no exterior.

Local: Pinacoteca do Estado de São Paulo e a Estação Pinacoteca.

Patrocínio: Mapfre Seguros

V Semana da África

Quando: 23 a 25 de maio de 2011.

Onde: Universidade Federal da Bahia.

Informaçőes: http://www.vsemanadaafrica.com.br/index.html

Adriana Moreira canta Clara Nunes

Dia: 24/05/11 – 15h00

Local: SESC Consolação

Rua Dr. Vila Nova, 245

Grátis

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Cultura: mercadoria ou bem comum?

Blog do Emir - 18/05/2011


Todo o programa neoliberal, assim como o diagnóstico que levou a ele, pode ser sintetizado em um ponto: desregulamentar. O diagnóstico de por que a economia tinha parado de crescer, depois do ciclo mais longo de expansão capitalista no segundo pos-guerra, se centrou no suposto excesso de regulamentação. O capital se sentiria inibido para investir, por estar cerceado por excesso de normas, leis, políticas, que bloqueariam a “livre circulação do capital”.

Chegado ao governo, o neoliberalismo se pôs a privatizar patrimônio público, a diminuir o tamanho do Estado, a abrir as economias nacionais ao mercado internacional, a “flexibilizar” as relações de trabalho, entre tantas outras medidas padrão codificadas no chamado Consenso de Washington e colocadas em prática por governos às vezes com origens ideológicas distintas, mas todos rendidos ao “pensamento único”. Todas elas são formas de desregulamentação, de retiradas de supostos obstáculos à circulação do capital.

Quando se privatizam empresas, se está levantando obstáculos para que o capital privado se aproprie delas, se está desregulamentando o mercado de propriedade de empresas. Quando se aceita a não obediência a normas básicas da legislação do trabalho para contratar trabalhadores, se está desregulamentando o mercado de trabalho. Assim para todas as medidas do receituário neoliberal.

Promoveu-se assim, rapidamente, o maior processo de concentração de riqueza que tínhamos conhecido, tanto a nível nacional, quanto mundial. Sem proteções dos Estados, os mais frágeis, os mais pobres – a grande maioria de cada sociedade, em especial as periféricas, - se viram indefesos diante das ofensivas do capital e dos Estados centrais do capitalismo.

Direitos, como aqueles à educação e à saúde, foram deixando de ser direitos para se transformar em mercadorias, compráveis no mercado. Quem tem mais recursos, compra mais e melhor, em detrimento de quem não tem. Riquezas naturais, como a água passaram a ser mercadoras, compradas e vendidas.

O Estado, principalmente nas suas funções reguladoras – de afirmação dos direitos contra a voracidade do capital – passou a ser vítima privilegiada dos ataques neoliberais, pregando-se o “Estado mínimo” e a primazia do mercado, isto é, da concorrência feroz, em que os mais fortes e mais ricos ganham sempre.

Até a cultura foi vítima de um grande embate, para definir se se trata de uma mercadoria mais ou de um bem comum. Do ponto de vista institucional o debate se deu para definir se a cultura deveria ser objeto da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, portanto, uma mercadoria a mais, ou no âmbito da Unesco, considerada como patrimônio da humanidade, como bem comum, com as devidas proteções. Terminou triunfando esta segunda versão – apesar da brutal oposição e pressão dos EUA, que chegaram a se retirar da Unesco.

Foi um momento muito importante de resistência ao neoliberalismo, que queria reduzir também a capacidade de cada povo, de cada nação, de cada setor da sociedade, de afirmar suas identidades específicas, dissolvidas pela globalização. Queriam desregulamentar também a cultura, deixá-la ao sabor das relações de mercado, sem proteção de regulações estatais.

Mas o embate não terminou por aí, porque o poder avassalador dos capitais privados, nacionais e internacionais, é um fluxo permanente, cotidiano, buscando expandir seu poder de mercantilização. As TVs públicas, por exemplo, se debilitam no seu papel diferenciado dos mecanismos de mercado que regem as TVs privadas, enfraquecidas pela falta de financiamento, apelam ao mercado e induzem seus mecanismos – como aconteceu tristemente com a TV Cultura de São Paulo.

Programas como o de Pontos de Cultura, do MINC, surgiram na contramão dessa lógica homogeneizadora da globalização na esfera cultural, buscando incentivar e proteger todas as formas de diversidade de cultural, de afirmação da heterogeneidade das identidades de setores sociais, étnicos, regionais, diferenciados.

Muitos outros debates atuais hoje no Brasil – o dos Commons, da propriedade intelectual, dos direitos de autor – são também objeto de duas concepções diferenciadas, uma regulamentadora – anti-neoiberal – outra desregulamentadora, neoliberal, mercantilizadora. No marco mais geral do embate entre neoliberalismo e posneoliberalismo, é que a natureza das posições fica mais clara. Por um lado, as normas protetoras que consideram a cultura como um bem comum, de outro, a desregulamentação, que a consideram uma mercadoria como outra qualquer. Do seu desenlace depende a natureza da cultura no Brasil na segunda metade do século XXI.

Postado por Emir Sader às 08:07
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=705

Cresce na Espanha a Revolução dos Indignados

O movimento que iniciou no dia 15 de maio, chamado 15-M ou a “revolução espanhola”, cresceu quinta-feira com panelaços que reuniram multidões em dezenas de cidades de todo o país para exigir a mudança de um sistema que consideram injusto. A revolta cresce a cada hora. Começou com uma convocatória nas redes sociais e internet para repudiar a corrupção endêmica do sistema e a falta de oportunidades para os mais jovens. A também chamada Revolução dos Indignados acusa, pela situação atual, o FMI, a OTAN, a União Europeia, as agências de classificação de risco, o Banco Mundial e, no caso da Espanha, os dois grandes partidos: PP e PSOE. O artigo é de Armando G. Tejeda, do La Jornada.

Armando G. Tejeda - La Jornada

A Junta Eleitoral Central da Espanha proibiu em todo o país qualquer manifestação desde a zero hora de sábado até às 24 horas de domingo, dia das eleições municipais, em uma clara alusão às mobilizações do movimento cidadão Democracia Real Já que, desde o último domingo, ocorrem em repúdio ao modelo político e econômico vigente e que já se espalharam em escala nacional.

Alfredo Peréz Rubalcaba, ministro do Interior, declarou que o governo só esperava o pronunciamento da junta eleitoral para decidir se ordena à polícia dispersar os manifestantes. Enquanto isso, milhares de cidadãos indignados na Porta do Sol, em Madri, na Praça da Catalunha, em Barcelona, na Praça do Pilar, em Zaragoza, e no Parasol da Encarnação, em Sevilla, entre outras, voltaram a romper o cerco policial e, uma vez mais, repudiaram a política, banqueiros e empresários.

O movimento que iniciou no dia 15 de maio, chamado 15-M ou a “revolução espanhola”, cresceu quinta-feira com panelaços que reuniram multidões em dezenas de cidades de todo o país para exigir a mudança de um sistema que consideram injusto. A revolta cresce a cada hora. Começou com uma convocatória nas redes sociais e internet para repudiar a corrupção endêmica do sistema e a falta de oportunidades para os mais jovens e acabou se estendendo para a comunidade espanhola na Itália, Inglaterra, Estados Unidos e México, entre outros países.

No quinto dia de mobilizações a afluência aumentou sensivelmente, sobretudo em Madri e Barcelona, onde dezenas de milhares entoaram palavras de ordem durante horas. Uma delas advertia: se vocês não nos deixam sonhar, nós não os deixaremos dormir.

Os manifestantes desenvolveram métodos de organização através de comissões por setores – saúde, alimentação, meios de comunicação, etc. -, que decidem cada atividade. Nas assembleias gerais decide-se a estratégia e busca-se uma mensagem política unificada que mostrem as principais razões de descontentamento e protesto. Na quinta-feira, por exemplo, decidiu-se manter a mobilização até o próximo domingo, quando ocorrem as eleições locais, e, o mais importante, confirmar a convocatória para a manifestação deste sábado.

Mais tarde, a Junta Eleitoral Central declarou ilegais as concentrações, ao considerar que elas não se ajustam à lei eleitoral e excedem o direito de manifestação garantido constitucionalmente. De fato, desde o início da semana, todas as mobilizações, concentrações e marchas da “revolução espanhola” foram declaradas ilegais pela Junta Eleitoral de Madri. Em resposta, o número de indignados se multiplicou.

Depois de conhecer a decisão da Junta Eleitoral Central, o movimento cidadão decidiu simplesmente manter o acampamento, ao mesmo tempo em que ecoou um grito unânime: não nos tirarão daqui, vamos ganhar esta revolução. Em seguida, foi lido o manifesto original do movimento em uma dezena de idiomas. O texto aponta a classe política e os meios de comunicação eletrônicos como os grandes aliados dos agentes financeiros, os causadores e grandes beneficiários da crise. Advertem que é preciso um discurso político capaz de reconstruir o tecido social, sistematicamente enfraquecido por anos de mentiras e corrupção. “Nós, cidadãos, perdemos o respeito pelos partidos políticos majoritários, mas isso não equivale a perder nosso sentido crítico. Não tememos a política. Tomar a palavra é política. Buscar alternativas de participação cidadã é política”.

A também chamada Revolução dos Indignados acusa, pela situação atual, o Fundo Monetário Internacional, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a União Europeia, as agências de classificação de risco, o Banco Mundial e, no caso da Espanha, os dois grandes partidos: o direitista Partido Popular (PP) e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de centro-esquerda.

A reação da direita

Desde a esquerda, há tentativas de aproximação aos indignados. O líder do governo, José Luis Rodríguez Zapatero, disse que é preciso escutar e ter sensibilidade porque há razões para a expressão desse descontentamento e dessa crítica. O líder da Esquerda Unida, Cayo Lara, defendeu o fim da submissão e do bipartidarismo, propiciado pela atual lei eleitoral.

Mas o setor duro da direita política e midiática reclamou com insistência a atuação policial para acabar com todas as mobilizações, sobretudo na Porta do Sul, e pediu inclusive ao Ministério do Interior para que adotasse meios violentos para assegurar esse fim. Uma das imagens do dia (quinta-feira) foi a do ex-ministro da Defesa durante o governo de José María Aznar, Federico Trillo, insultando com o dedo um grupo de cidadãos da revolução dos indignados.

As desqualificações mais fortes vieram, porém, dos meios de comunicação conservadores e da televisão pública de Madri, que acusaram o movimento de ser comunista, socialista, antissistema e de ter relação com o ETA. Um dos ideólogos da direita, César Vidal, foi mais além e depois de chamar, depreciativamente os manifestantes de “perroflautas” (tribo urbana também conhecida como ‘pés pretos’, formada por punks, anarquistas, hippies e ‘gente desocupada’), assegurou que estes jovens mantém contato regular com o Batasuna-ETA e que receberam cursos de guerrilha urbana, da Segi (organização de juventude da esquerda basca).

O movimento cidadão tem seu próprio canal de televisão, que transmite sem cessar as imagens da Porta do Sul (www.solttv.tv)

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte:http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17816&boletim_id=912&componente_id=14784

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Aproveitadores do falso debate 3!

Se valendo do oportunismo corriqueiro caracteristico de certos segmentos da população, as nossas formosas "zelites", lançando mão de uma polêmica superficial, procriaram diversas manifestações no rádio, TV, jornais, internet, etc., nas quais atribuem ao governo Lula a responsabilidade pelo lançamento do livro “Por uma Vida Melhor”, que integra a coleção Viver, Aprender, direcionada à educação de jovens e adultos. Sugerindo uma suposta e enorme preocupação com a educação em terras tupiniquins, aproveitaram a oportunidade para fuzilar o governo do, agora, ex-presidente. Miraram no que não viram e atingiram o próprio rabo preconceituoso, que de tão exposto já não surpreende mais!

Um falso debate 2? 'A batalha da língua na guerra das culturas'

Maria Alice Setubal* e Maurício Ernica** - Especial para o Estadão.edu - 18 de maio de 2011 - 16h 55

"O fato de um livro aprovado pelo Ministério da Educação (MEC) afirmar que é legítimo, sim, usar modos de falar populares reavivou antigas polêmicas. Como de hábito, várias vozes se levantam, a maioria contrária à posição do livro, e com muita frequência se manifestam com tom carregado de paixões.

Antes de tudo, antecipamos nosso ponto de vista: a escola deve assegurar aos alunos a aprendizagem da variante culta da língua portuguesa, que é a variante usada nos principais debates sobre as questões da vida pública, na produção científica e em grande parte de nossa produção cultural. No que diz respeito a esse objetivo, não se devem fazer concessões de espécie alguma.

Isso posto, cabe-nos dizer que o debate embola uma série de questões diferentes e seria produtivo se pudéssemos ter clareza sobre elas e discuti-las com alguma serenidade.

Primeiro: somos, ainda hoje, culturalmente reféns de uma gramática normativa e de um ideal de correção linguística muito distanciados da norma culta falada e escrita efetivamente praticada. Para ficarmos com uma ilustração simples: de acordo com a gramática normativa e os manuais de redação, deveríamos usar sempre o verbo gostar com a preposição de. Uma pesquisa realizada pelo linguista Carlos Alberto Faraco, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mostra, porém, que jornais de grande circulação e peças de publicidade rompem com essa regra, escrevendo, por exemplo, do jeito que você gosta e não do jeito de que você gosta. Esse é um exemplo simples, mas usual. Todos temos a lembrança de aulas de gramática que nos mostravam que falamos uma língua errada. Na verdade, somos reféns de uma gramática normativa anacrônica e de uma idealização do que seria o modo correto de falar e de escrever, que não reconhece a validade e a adequação sequer da nossa variante culta escrita, tal como praticada de fato.

Segundo: não há uma língua portuguesa única, mas várias. A língua varia na história e nos grupos sociais. As variações não estão apenas no “sotaque” ou no vocabulário das regiões e grupos, estão também nas construções sintáticas. Muitos dizem os livro; há quem pergunte quer ficar aqui mais eu?. Os mineiros dizem estou apaixonado com, os cariocas, tu vai e, os paulistas que alguém aposentou (sem o se). São exemplos simples, mais uma vez. Não estamos falando dos desvios daquele que está aprendendo a língua e se arrisca em hipóteses equivocadas, mas sim de formas de longa duração e consagradas pelo uso. No confronto das variações, temos que o falar de uns é errado segundo as normas de outros. E aqui está um ponto importante: uma dessas variantes é a variante de prestígio, a variante usada pela imprensa, pela ciência, pelo Estado, por boa parte das artes; em suma, é a variante das práticas culturais letradas, a variante culta. A variante culta, mesmo não correspondendo exatamente à norma gramatical, torna-se medida do erro e do acerto das demais variantes. Ora, tomar o seu universo cultural como medida para avaliar a cultura do outro é... em linguagem simples, preconceito.

Terceiro: o desenvolvimento das capacidades de pensamento e raciocínio não está ligado às variantes linguísticas. Bem verdade que a apropriação da língua é o que permite aos seres humanos o desenvolvimento das funções psicológicas. Contudo, isso pode ser feito em qualquer variante linguística. Em suma, é possível ser néscio e obtuso em linguagem culta e ser muito inteligente em uma variante popular, com pouco prestígio, e vice-versa. Aliás, filosofar em alemão, inglês, francês ou russo, por exemplo, só foi possível porque em um dado momento as “línguas bárbaras” foram tomadas pelos filósofos como línguas para a prática da cultura letrada, desbancando o monopólio do velho latim.

Quarto: é importante que a escola reconheça a validade relativa das variantes linguísticas e, igualmente, a existência de uma variante culta. Para muitas crianças originárias dos diversos segmentos das camadas populares de nosso País, a língua da escola é uma língua estrangeira no sentido mais estrito do termo: é língua do outro. Ora, se essa variante, culta e prestigiosa, impõe-se como referência do falar certo, ela exerce, sim, sobre os falantes das outras variantes, uma forma de violência simbólica que nega a validade e a legitimidade do universo cultural dessas crianças e de suas famílias. O pacote só é vendido inteiro: negar a validade das variantes linguísticas é negar a diversidade cultural de nosso País e negar a cultura popular. Contudo, como afirmamos logo no início, é papel da escola ensinar e assegurar a aprendizagem da variante culta. Mas isso não precisa ser feito negando as demais. Pode ser feito, simplesmente, estimulando a existência de cidadãos capazes de falar múltiplas variantes, cidadãos “bilíngues” em sua própria língua.

Quinto: a transposição didática dessas questões teóricas é importante, mas não é uma tarefa simples, nem suficiente. Trata-se de algo que deve ser feito com cuidado, sob o risco de aumentar os mal entendidos. O livro didático deve falar para o aluno e para o professor, frequentemente pessoas que têm nele sua principal fonte de formação e informação. A escrita didática, assim como todas as formas de divulgação, inclusive a jornalística, é necessariamente simplificadora. E aí está o coração do desafio. Deve-se ser teoricamente consistente, devem-se explicitar com clareza e sem dubiedades os objetivos didáticos, em linguagem simples e acessível a um público amplo, muito maior que o público leitor dos jornais de grande circulação. Deve-se tentar ao máximo evitar o risco de ser mal entendido – no caso, de “autorizar” ou “incentivar” a escola a não ensinar a variante culta ou, ao contrário, reforçar os preconceitos contra as variantes lingüísticas populares e os estigmas que pesam sobre os alunos de meios desfavorecidos. É necessário reconhecer, então, que qualquer livro didático, por melhor que seja, possui seus limites. Um deles reside na adequada formação daqueles que os utilizam.

Por fim, cabe-nos reconhecer que as principais decisões sobre a qualidade da educação são de natureza política, mais que técnica. Envolvem disputas de poder sobre os aspectos de nossa cultura que julgamos legítimos e que queremos que sejam transmitidos às novas gerações. Em nosso caso, queremos um país culto e culturalmente diversificado, um país cujos cidadãos se apropriem das formas eruditas da cultura, mas que valorizem a riqueza de nossos legados culturais, inclusive aqueles que nos ligam de modo intenso e vivo ao rico e complexo universo da gente simples e da cultura inventiva de nosso povo."

* PRESIDENTE DO CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM EDUCAÇÃO, CULTURA E AÇÃO COMUNITÁRIA (CENPEC)

** PESQUISADOR DO CENPEC

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,artigo-a-batalha-da-lingua-na-guerra-das-culturas,720978,0.htm

Um falso debate 1 ? - Especialistas comentam polêmica em torno do livro Por Uma Vida Melhor

Fabiana Hiromi


Livro distribuído pelo MEC para turmas de EJA reconhece variantes linguísticas distintas da norma culta

Teve início na semana passada polêmica em torno do livro “Por uma Vida Melhor”, que integra a coleção Viver,Aprender, direcionada à educação de jovens e adultos. A obra, previamente avaliada por uma comissão de especialistas, foi distribuída a 484.195 alunos de 4.236 escolas de todo o País pelo Ministério da Educação, por meio do Programa Nacional do Livro Didático para essa modalidade.


O trecho do livro que gerou debates acalorados na imprensa trata das diferenças entre a língua oral e a culta. O texto afirma que é possível falar, dependendo da situação, “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. Mas adverte que “corre-se o risco de ser vítima de preconceito lingüístico”. E conclui que “o falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião”.

No Portal do IG, o primeiro a levantar a polêmica, a questão foi abordada em notícia do dia 12/05 intitulada “MEC usa livro que ensina aluno a falar errado”. Ouvido pela Folha de S.Paulo, o linguista Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, critica o material: "Se o professor diz que o aluno pode continuar falando 'nós vai' porque isso não está errado, então esse é o pior tipo de pedagogia, a da mesmice cultural", diz. Em editorial da edição desta quarta (18/05), O Estado de S.Paulo acusa o MEC de "falta de rigor no processo de escolha" das publicações didáticas que distribui e conclui que "ao impor a pedagogia da ignorância a pretexto de defender a linguagem popular, as autoridades educacionais prejudicam a formação das novas gerações".

Em nota, a Ação Educativa, ONG responsável pela coordenação pedagógica da publicação, reitera que “a abordagem é adequada, pois diversos especialistas em ensino de língua, assim como as orientações oficiais para a área, afirmam que tomar consciência da variante linguística que se usa e entender como a sociedade valoriza desigualmente as diferentes variantes pode ajudar na apropriação da norma culta”.

Defende ainda que “uma escola democrática deve ensinar as regras gramaticais a todos os alunos sem menosprezar a cultura em que estão inseridos e sem destituir a língua que falam de sua gramática, ainda que esta não esteja codificada por escrito nem seja socialmente prestigiada”.

A coordenadora geral da Ação Educativa, Vera Masagão, critica o modo como o assunto vem sendo abordado na imprensa. “Os jornalistas devem promover um debate educativo, que não leve os professores a um retrocesso no ensino da língua. Também é importante que esse debate seja contextualizado e não baseado em um trecho da obra, e sem que os autores sejam desrespeitados, que é o que vem acontecendo na imprensa. Vale enfatizar que o livro é voltado para adultos e em nenhum momento ensina a falar ou escrever errado”, afirma.

“Os comentários e opiniões sobre a questão sequer levam em consideração que se trata de um livro de EJA. Foi se produzindo uma série de confusões sobre o tema. Em momento algum, o livro está questionando se a norma culta deve ser ensinada. O debate foi evoluindo de uma forma que as questões ficaram emboladas, contribuindo muito pouco para esclarecer o assunto”, analisa o pesquisador do Cenpec, Maurício Ernica.

O MEC também se pronunciou oficialmente em nota, esclarecendo que “os livros apresentam objetivos coerentes e compatíveis com as Diretrizes Gerais da Educação de Jovens e Adultos. Propõem uma abordagem que considera uma situação de interlocução socialmente contextualizada, procurando levar em conta os saberes prévios dos alunos”. Afirma ainda que a obra segue os parâmetros curriculares nacionais, de 1997, que recomendam que “a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma ‘certa’ de falar, a que parece com a escrita; e o de que a escrita é o espelho da fala”.

Para o professor do Departamento de Linguística da PUC-SP, Egon Rangel, trata-de se uma “falsa polêmica”, já que o livro segue rigorosamente as orientações oficiais para o ensino de Língua Portuguesa. “Os PCNs, as diretrizes curriculares, todos esses documentos afirmam que a variação lingüística deve ser objeto de ensino e que a norma culta deve ser introduzida na escola como uma das variantes da língua portuguesa, dentre outras”, lembra. “O livro faz exatamente isso: ensina a norma culta, esclarecendo que ela é uma das variantes da língua e que a variante de origem que o aluno eventualmente tenha – uma variante popular, por exemplo – é tão legítima quanto a norma culta”, salienta.

Um outro ponto levantado pelo pesquisador do Cenpec importante nesse debate está relacionado a um certo anacronismo da nossa gramática normativa. “Existe uma idealização da gramática, documentos que normatizam a língua e não correspondem à língua falada por ninguém. Diante disso, parece que todos erramos. Isso não é levado em conta nesse debate. Segundo ponto: a língua varia entre os grupos sociais e as regiões. E não é só no sotaque ou no vocabulário, mas nas construções que remetem a estruturas antigas da língua e a suas misturas com outras línguas. A língua não é homogênea. Cabe reconhecer isso. A variante culta não é a única”, enfatiza Ernica.

Por fim, ele ressalta ainda o viés político dessa polêmica. "Envolve quais saberes legitimamos, queremos ensinar, e o que consideramos menos importante”, analisa. “A posição do Cenpec desde sempre é a de reconhecer a diversidade cultural, sem perder de vista a importância que a cultura letrada tem”.

Fonte: http://cenpec.org.br/noticias/ler/Livro-distribu%C3%ADdo-pelo-MEC-para-turmas-de-EJA-reconhece-variantes-lingu%C3%ADsticas-distintas-da-norma-culta

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Capoeira na Lapinha

8º Encontro de Cultura de Raiz–Lapinha Museu Vivo – 19/5 a 22/5/2011 -  Belo Horizonte  e  Lagoa Santa (MG).

Mistério do Ministério da Cultura - Carta Aberta à Presidenta Dilma Rousself

Carta Aberta à Presidenta Dilma Rousself (protocolada dia 22 de abril em Brasilia, na Presidência da República)

“Esta carta é uma manifestação de pessoas e organizações da sociedade civil e busca expressar nosso extremo desconforto com as mudanças ocorridas no campo das políticas culturais, zerando oito anos de acúmulo de discussões e avanços que deram visibilidade e interlocução a um Ministério até então subalterno. Frustrando aqueles que viam no simbolismo da nomeação da primeira mulher Ministra da Cultura do Brasil a confirmação de uma vitória, essa gestão rapidamente se encarregou de desconstruir não só as conquistas da gestão anterior, mas principalmente o inédito, amplo e produtivo ambiente de debate que havia se estabelecido.

Os signatários desta carta acreditam na continuidade e no aprofundamento das políticas bem-sucedidas do governo Lula. Essas políticas estão sintetizadas no Plano Nacional de Cultura, fruto de extenso processo de consultas públicas que foi transformado em lei sancionada pelo presidente, e que agora está sendo ignorado pela ministra. Afirmamos que, se a gestão anterior teve acertos, foi por procurar aproximar o Ministério das forças vivas da cultura, compreendendo que há um novo protagonismo por parte de indivíduos, grupos e populações até então tidos como “periféricos”, entendendo as extraordinárias possibilidades da Cultura Digital. Essa não é apenas uma discussão sobre ferramental tecnológico e jurídico, mas sobre todo um novo contexto criativo e cultural, pois essas tecnologias têm sido apropriadas e reinventadas em alguma medida por esses novos atores. É nesse território fundamental, da inserção da Cultura Digital no centro das discussões de políticas culturais do Ministério e da busca da capilaridade de programas como o Cultura Viva, com os Pontos de Cultura, que a Ministra sinalizou firmemente um retrocesso.

Ao bloquear o processo de reforma da lei dos Direitos Autorais, ignorando as manifestações recebidas durante 6 anos de debates, 150 reuniões realizadas em todo o país, 9 seminários nacionais e internacionais, 75 dias de consulta pública através da internet que receberam 7863 contribuições, a Ministra afronta todo um enorme esforço democrático de compreensão e elaboração. Se há uma explicação constrangedora nessa urgência em barrar uma dinâmica política tão saudável, é a de vir em socorro a instituições ameaçadas em seus privilégios, como o ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) e as associações que o compõem, que apoiaram de forma explícita e decidida as políticas culturais e o candidato derrotado no pleito eleitoral presidencial.

Mas esse “socorro”, como dissemos, se dá ao arrepio da Lei 12.343 de 2 de dezembro de 2010, que aprovou o PNC, estabelecendo claramente a obrigação de reforma da Lei dos Direitos Autorais conforme os itens 1.9.1 e 1.9.2, que determinam “criar instituição especificamente voltada à promoção e regulação de direitos autorais e suas atividades de arrecadação e distribuição” e “revisar a legislação brasileira sobre direitos autorais, com vistas em equilibrar os interesses dos criadores, investidores e usuários, estabelecendo relações contratuais mais justas e critérios mais transparentes de arrecadação e distribuição. Ao afirmar que o texto da lei é “ditatorial” e que a proposta construída durante o governo Lula é “controversa” e não atende aos “interesses dos autores”, a Ministra deliberadamente mistura o interesse dos criadores com o dos intermediários, e contrabandeia para o seio do governo Dilma precisamente as posições derrotadas com a eleição da Presidenta.

A questão da retirada da licença Creative Commons do portal do MinC também merece ser mencionada, por seu simbolismo. O Ministério da Cultura do governo Lula foi pioneiro em reconhecer que as leis de direito de autor estão em descompasso com as práticas desta época, e que seria imperioso aprimorá-las em favor dos criadores e do amplo acesso à cultura. Esse avanço foi expresso no PNC no item 1.9.13, que prevê ”incentivar e fomentar o desenvolvimento de produtos e conteúdos culturais intensivos em conhecimento e tecnologia, em especial sob regimes flexíveis de propriedade intelectual”. Ao contrário do que tem dito a ministra, as licenças C.C. e similares visam regular a forma de remuneração do artista, e não impedi-la. Elas buscam ampliar o poder do autor em relação à sua obra e adaptar-se às novas formas de produção, distribuição e remuneração, aos novos modelos de negócio que essas tecnologias possibilitam.

Assim, entendemos que as iniciativas da atual gestão do Ministério da Cultura não são fiéis nem à sua campanha presidencial, nem ao Plano Nacional de Cultura e nem à discussão acumulada, representando, na melhor das hipóteses, um voluntarismo desinformado e desastroso, e na pior delas um retrocesso deliberado. Apoiamos a Presidenta Dilma Rousseff em sua manifestada intenção de continuar valorizando e promovendo a cultura brasileira, fortalecendo uma liderança global em discussões onde a nossa postura inovadora vinha se destacando dos modelos conservadores pregados pela indústria cultural hegemônica dos Estados Unidos e da Europa. Para isso é necessário que o Ministério da Cultura se coadune à perspectiva do governo Dilma, de compreender, aprofundar e ampliar as conquistas das políticas culturais do governo Lula”

Cooperativa de Música de São Paulo
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terça-feira, 17 de maio de 2011

A discriminação no Brasil é étnica, social e regional

Emir Sader - 13/05/2011


O processo de ascensão social de massas, inédito no Brasil, volta a promover formas de discriminação. A política – de sucesso comprovado – de cotas nas universidades, a eleição de um operário nordestino para Presidente da República – igualmente de sucesso inquestionável -, a ascensão ao consumo de bens essenciais que sempre lhes foram negados – fenômeno central no Brasil de hoje -, provocaram reações de discriminação que pareciam não existir entre nós.

A cruel brincadeira de repetir um mote das elites – “O Brasil não tem discriminação porque os negros conhecem o seu lugar” – mostra sua verdadeira cara quando essas mesmas elites sentem seus privilégios ameaçados. Setores que nunca se importavam com a desigualdade quando seus filhos tinham preparação sistemática para concorrer em melhores condições às vagas das universidades públicas, passaram a apelar para a igualdade na concorrência, quando os setores relegados secularmente no Brasil passaram a ter cotas para essas vagas.

Professores universitários – incrivelmente, em especial antropólogos, que deveriam ser os primeiros a lutar contra a discriminação racial -, músicos – significativa a presença de músicos baianos, que deveriam ser muito mais sensíveis que os outros à questão negra -, publicaram manifesto contra a política de cotas, em nome da igualdade diante da lei do liberalismo.

A vitória da Dilma, por sua vez, provocou a reação irada e ressentida de vozes, especialmente da elite paulistana, contra os nordestinos, por terem sido os setores do país que pela primeira vez são atendidos em seus direitos básicos. Reascendeu-se o espírito de 1932, aquele que orientou o separatismo paulista na reação contra a ascensão do Getúlio e de suas politicas de democratização econômica e social do Brasil. Um ranço racista, antinordestino, aflorou claramente, dirigidos ao Lula e aos nordestinos, que vivem e constroem o progresso de São Paulo, e aos que sobreviveram à pior miséria nacional no nordeste e hoje constroem uma região melhor para todos.

A discussão sobre o metrô em Higienópolis tem a vem com a apropriação privilegiada dos espaços urbanos pelos mais ricos que, quando podem, fecham ilegalmente ruas, se blindam em condomínios privados com guardas privados. A rejeição de pessoas do bairro – 3500 assinaturas – à estação do metrô expressava o que foi dito por alguns, sentido por todos eles, de impedir que seja facilitado o acesso ao bairro – a que mesmo seus empregados particulares tem que chegar tomando 2 ou 3 ônibus -, com a alegação que chegariam camelôs, drogas (como se o consumo fosse restrito a setores pobres), violência, etc.

Nos três tipos de fenômeno, elemento comum é a discriminação. Étnica, contra os negros, na politica de cotas; contra os nordestinos, nas eleições; na estação do metrô, contra os pobres.

Os três níveis estão entrelaçados historicamente. Fomos o último país a terminar com a escravidão, por termos passado de colônia à monarquia e não à república. Adiou-se o fim da escravidão para o fim do século. No meio do século XIX foi elaborada a Lei de Terras, que legalizou a propriedade – via grilagem, em que em papel forjado é colocado na gaveta e o cocô do grilo faz parecer antigo. Quando terminou finalmente a escravidão, todas as terras estavam ocupadas. Os novos cidadãos “livres” deixaram de ser escravos, mas não foram recompensados nem sequer com pedaços de terra. Os negros livres passaram a se somar automaticamente à legião de pobres no Brasil.

O modelo de desenvolvimento, por sua vez, concentrador de investimentos e de renda, privilegiou o setor centro sul do Brasil, abandonando o nordeste quando se esgotou o ciclo da cana de açúcar. Assim, nordestino, esquematicamente falando, era latifundiário ou era pobre. Esse mesmo modelo privilegiou o consumo de luxo e a exportação como seus mercados fundamentais, especialmente com a ditadura militar e o arrocho salarial.

A discriminação dos negros, dos nordestinos e dos pobres foi assim uma construção histórica no Brasil, vinculada às opções das elites dominantes – em geral brancas, ricas e do centro-sul do pais. A discriminação tem que ser combatida então nas suas três dimensões completamente interligadas: étnicas, regionais e sociais. O fato do voto dos mais pobres (que inclui automaticamente os negros) e dos nordestinos estar na base da eleição e reeleição do Lula e na eleição da Dilma, com os avanços sociais correspondentes, só acirram as reações das elites. Discriminações que tem que ser combatidas com politicas publicas, com mobilizações populares e também com a batalha no plano das idéias.

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sistema alemão divide alunos desde o 7º ano

DENISE MENCHEN DE BERLIM - Folha de São Paulo, 16/05/2011 - São Paulo SP


Em Berlim, os alunos começam a traçar rumos diferentes a partir do sétimo ano de estudo. De acordo com o histórico dos seis anos da educação básica, eles são aconselhados a seguir a vida escolar em um dos dois modelos educacionais existentes desde a reforma de 2010 - Ginásio ou Escola Secundária Integrada. Voltado à preparação dos alunos ao mundo acadêmico, o Ginásio é reservado para os que têm as maiores notas. E, no primeiro ano, quem não tiver bom desempenho deve mudar para a secundária. Já o modelo da Escola Secundária Integrada tem aulas em tempo integral e aprovação automática. Além disso, essas escolas podem usar o contraturno para aulas de reforço e de aprofundamento das disciplinas tradicionais. Esse modelo também foca a formação profissional. Mas em ambos os modelos é possível realizar o Abitur, exame para o ingresso na universidade. Segundo o governo local, o objetivo é oferecer as melhores possibilidades adequadas à realidade.

Currículo na mira

Diretrizes do MEC reacendem o debate sobre como fazer os jovens de 15 a 17 anos se interessarem pela escola
IZABELA MOI / MARINA MESQUITA DE SÃO PAULO - Folha de São Paulo, 16/05/2011 - São Paulo SP



O Brasil desperdiça os talentos de cerca de 50% da população de 15 a 17 anos. Os últimos dados sobre o ensino médio, de 2009, mostram que não é somente a qualidade que deixa a desejar. Nessa faixa etária, 33% dos jovens ainda estão atrasados no ensino fundamental e 15% estão fora da escola. A evasão escolar é causada principalmente pela falta de motivação desses alunos, segundo afirma pesquisa da Fundação Getulio Vargas. "Às vezes, [o jovem] chega ao ensino médio sem entender o que estão dando para ele", diz Wanda Engels, do Instituto Unibanco. A recente aprovação pelo Conselho Nacional de Educação do PNE (Plano Nacional de Educação) - que apenas explicitou a flexibilização já prevista na lei de 1996 - reavivou a discussão sobre o interesse dos jovens. O PNE pretende guiar uma reforma no ensino médio a começar pelo currículo que será flexibilizado. Os conteúdos, obrigatórios e eletivos, devem ser articulados em áreas: ciência, trabalho, tecnologia, cultura e esporte.

Por trás dessas linhas está o objetivo de fazer com que a escola - e a educação que se oferece - torne-se não só útil, mas atraente aos jovens. "A divisão em áreas aponta para a superação da divisão em disciplinas. Essa fragmentação do conhecimento, distanciada das questões da sociedade, é um dos grandes fatores de desinteresse e reprovação no ensino médio", afirma Luis Marcio Barbosa, do Colégio Equipe (zona oeste de São Paulo). "Mas é preciso pensar se o direito de escolha do aluno será garantido. E se na escola próxima a ele forem oferecidas áreas com as quais ele não tem afinidade? Na rede privada, esse direito está posto", diz Anna Helena Altenfelder, superintendente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária).

Além disso, para dar certo, a proposta depende de um profissional diferente. "Precisamos repensar a formação do professor", diz Mozart Ramos, conselheiro do Todos pela Educação. O Colégio Magister (zona sul de São Paulo), que acolhe as diretrizes, decidiu criar mecanismos internos para qualificação dos professores. "Se a escola não assumisse isso, teríamos problemas para trabalhar", afirma Marcelo Feitosa, coordenador do ensino médio. Mas as mudanças na rede pública devem levar ainda mais tempo. "Depois que o projeto for finalmente aprovado, vem a parte da adequação. Haverá a fase estadual e a municipal", diz Carlos Jamil Cury, professor da PUC-MG. Contatada pela Folha, a Secretaria da Educação paulista afirmou que "aguardará deliberação do Conselho Estadual de Educação" para se pronunciar. MODELOS - Enquanto isso, há apenas modelos experimentais nas redes públicas. É o caso de Pernambuco. Funcionando desde 2010, o "ensino médio inovador" foi implantado em 17 escolas do Estado, segundo o secretário de Educação de Pernambuco, Anderson Gomes. Na escola Senador João Cleofas de Oliveira, em Vitória de Santo Antão (47 km de Recife), a nova proposta atinge 240 estudantes. O foco escolhido pelos gestores é a tecnologia, mas são as aulas de teatro e cinema as que mais animam os jovens. Jefferson dos Santos, 18, diz que o "ensino inovador" o encorajou a estudar. "Agora aprendi a gostar de ler." Para Santos, a adesão ao programa só não é maior porque muitos o confundem com curso técnico. "É difícil mostrar que não tem nada a ver uma coisa com a outra." A visão do jovem não fica muito longe da análise de Jô Fortarel, coordenadora do Colégio Sidarta, em Cotia (31 km de São Paulo). "Talvez, em âmbito nacional e em situações específicas, seja interessante. Por exemplo, no caso em que uma escola em uma região industrial der destaque à tecnologia. Mas entendemos ser mais limitador do que enriquecedor. Nossos alunos querem buscar um espaço no campo de trabalho e não apenas no entorno, mas nas inúmeras possibilidades dentro e fora do país". Colaborou FÁBIO GUIBU, de Recife.

Alunos copistas são a nova face do analfabetismo funcional, que chega a atingir um terço da população brasileira

Alessandra Duarte e Efrém Ribeiro - O Globo, 16/05/2011 - Rio de Janeiro RJ


RIO - Foi no 4º ano do fundamental que Vanderson Washington da Silva aprendeu a ler e a escrever. Até ali, o jovem morador de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, era um aluno copista: só copiava no caderno o que via no quadro - letras que, para ele, foram por muito tempo desenhos sem significado. O problema dos alunos copistas é um exemplo recente do analfabetismo funcional, que no país atinge um terço da população. Dos que aprenderam a ler e escrever mais tarde, entre 9 e 14 anos - característica do copista -, só 13% se tornaram plenamente alfabetizados, apontam dados inéditos calculados pelo Instituto Paulo Montenegro a pedido do GLOBO, sobre jovens de 15 a 24 anos das nove principais regiões metropolitanas do país. Se a definição mais conhecida de analfabeto funcional é quem lê mas não interpreta um texto, com o copista é pior: como só copia, não sabe que o "a" que escreveu, por exemplo, é um "a". - São crianças que não se apropriam do significado das palavras. Mas vão galgando as séries porque, como copiam, conseguem cumprir algumas tarefas em sala - diz Marilene Proença, professora da USP e integrante da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional.

Mostrando como o estudo sobre o copista é relativamente recente, é de 2007 uma das primeiras pesquisas sobre o tema, uma dissertação de Giuliana Temple na USP, orientada por Marilene Proença, com copistas da rede estadual paulista. O GLOBO teve contato com o problema dos copistas meses atrás, em reportagem sobre outro tema em Saracuruna, ao conversar com Marilene Silva, professora que coordena uma creche comunitária na área, a Santa Terezinha. Além de creche, ela oferece reforço gratuito a alunos da região. Foi lá que Vanderson se alfabetizou. - No colégio, a professora passava no quadro, eu copiava, copiava, mas não entendia nada, não - diz o menino, que sonha ser "dono de empresa". "Chegam aqui sem conhecer o alfabeto" Também recebem apoio na Santa Terezinha os irmãos Keteley e Erick do Nascimento, na mesma sala de reforço de Jéssica da Silva e Douglas Ribeiro. Estudam na região, no Ciep 318 e na Escola Municipal Marcílio Dias. - Na escola, estão em anos que seriam as antigas 1ª, 2ª, 3ª e 4ª séries. Chegam aqui sem conhecer o alfabeto. Às vezes, nem números - diz a aluna do ensino médio Cristiane Mattos, que, dando aula na Santa Terezinha, é a alfabetizadora das crianças.

No Piauí, Weldey Frankin, 14 anos, está matriculado no 3º ano do fundamental em Chapadinha Sul, zona rural de Teresina. Mas não sabe ler. Mudo, não passou por escola especial. Segundo a irmã, Amanda, "é ótimo desenhista". Desenha as letras dos livros. "Na hora de ele responder os exercícios, aponto as respostas no livro e ele copia", diz a irmã. - Já peguei um caderno de um aluno da 7ª série, de um colégio municipal de Porto Alegre, com tudo copiado corretamente. E ele não sabia ler. Era um artista! - conta Esther Grossi, ex-secretária de Educação de Porto Alegre e ex-deputada, presidente do Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação (Geempa), que atua com correção de fluxo escolar. - O aluno copista é forte candidato a ser um analfabeto funcional ao longo da vida - diz Ana Lúcia Lima, diretora-executiva do Instituto Paulo Montenegro, que desde 2001 calcula o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). - Ele tem grande risco de se tornar o chamado alfabetizado rudimentar: reconhece algumas palavras, escreve um bilhete, dá um troco, e pronto.

Dois dos principais motivos apontados para o analfabetismo funcional são alfabetização tardia e baixa escolaridade dos pais. Segundo dados inéditos do Instituto Paulo Montenegro, sobre jovens das Regiões Metropolitanas, entre os alfabetizados plenos, 90% aprenderam a ler até os 8 anos. Quando o pai ou a mãe tem o fundamental, cerca de 69% dos filhos são analfabetos funcionais ou alfabetizados em nível básico. Mas, quando o pai ou a mãe tem nível superior, até 75% são alfabetizados plenos. O peso da educação dos pais na dos filhos é mostrado ainda por dados do Pnud sobre jovens na América Latina. Quando os pais têm nível secundário, os filhos têm 5,4% de chance de chegar à universidade; já quando os pais têm nível universitário, os filhos têm 71,6% de chance de ir à faculdade. O pai de Vanderson, Jorge Salindo, estudou até a antiga 5 série; teve de ir "trabalhar em obra para ajudar em casa". No caso do copista, haveria mais um motivo: um sistema de ciclos ou progressão continuada malfeito. Aí, o aluno, mesmo só copiando, avança nas séries sem repetir. São em escolas com ciclo - prática que se intensificou no país a partir dos anos 1990 - que estudavam os copistas do estudo da USP e os que precisam do reforço da Santa Terezinha. Marilene Proença diz que o ciclo "é política cara", que requer ações como reforço e contraturno. Para Esther Grossi, o copista "é um fenômeno dos ciclos".

A Secretaria estadual de Educação de São Paulo informou que oferece "o Projeto Intensivo de Ciclo, que possibilita recuperação da aprendizagem de leitura e escrita por turmas especiais". Secretária de Educação de Duque de Caxias, Roseli Duarte diz que a rede tem um programa de apoio com contraturnos. - Não podemos aceitar a existência de alunos copistas. Mas os ciclos são uma resposta à repetência, que, além de levar à evasão, nos anos iniciais causa a distorção idade-série - diz a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar. - Temos de pensar é em ações como educação integral, que já há em 15 mil escolas, e em qualificar os professores de alfabetização, com projetos como o Pró-Letramento, que já atingiu 300 mil professores.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Carta de um Nobel da Paz a Barack Obama

Adolfo Pérez Esquivel

Seg, 09 de Maio de 2011 12:07

Estimado Barack, ao dirigir-te esta carta o faço fraternalmente para, ao mesmo tempo, expressar-te a preocupação e indignação de ver como a destruição e a morte semeada em vários países, em nome da "liberdade e da democracia", duas palavras prostituídas e esvaziadas de conteúdo, termina justificando o assassinato e é festejada como se tratasse de um acontecimento desportivo.

Indignação pela atitude de setores da população dos Estados Unidos, de chefes de Estado europeus e de outros países que saíram a apoiar o assassinato de Bin Laden, ordenado por teu governo e tua complacência em nome de uma suposta justiça. Não procuraram detê-lo e julgá-lo pelos crimes supostamente cometidos, o que gera maior dúvida: o objetivo foi assassiná-lo.

Os mortos não falam e o medo do justiçado, que poderia dizer coisas inconvenientes para os EUA, resultou no assassinato e na tentativa de assegurar que "morto o cão, terminou a raiva", sem levar em conta que não fazem outra coisa que incrementá-la.

Quando te outorgaram o Prêmio Nobel da Paz, do qual somos depositários, te enviei uma carta que dizia: "Barack, me surpreendeu muito que tenham te outorgado o Nobel da Paz, mas agora que o recebeu deve colocá-lo a serviço da paz entre os povos; tens toda a possibilidade de fazê-lo, de terminar as guerras e começar a reverter a situação que viveu teu país e o mundo".

No entanto, ao invés disso, você incrementou o ódio e traiu os princípios assumidos na campanha eleitoral frente ao teu povo, como terminar com as guerras no Afeganistão e no Iraque e fechar as prisões em Guantánamo e Abu Graib no Iraque. Não fez nada disso. Pelo contrário, decidiu começar outra guerra contra a Líbia, apoiada pela OTAM e por uma vergonhosa resolução das Nações Unidas. Esse alto organismo, apequenado e sem pensamento próprio, perdeu o rumo e está submetido às veleidades e interesses das potências dominantes.

A base fundacional da ONU é a defesa e promoção da paz e da dignidade entre os povos. Seu preâmbulo diz: "Nós os povos do mundo...", hoje ausentes deste alto organismo.

Quero recordar um místico e mestre que tem uma grande influência em minha vida, o monge trapense da Abadia de Getsemani, em Kentucky, Tomás Merton, que diz: "a maior necessidade de nosso tempo é limpar a enorme massa de lixo mental e emocional que entope nossas mentes e converte toda vida política e social em uma enfermidade de massas. Sem essa limpeza doméstica não podemos começar a ver. E se não vemos não podemos pensar".

Você era muito jovem, Barack, durante a guerra do Vietnã e talvez não lembre a luta do povo norteamericano para opor-se à guerra. Os mortos, feridos e mutilados no Vietnã até o dia de hoje sofrem as consequências dessa guerra.

Tomás Merton dizia, frente a um carimbo do Correio que acabava de chegar, "The U.S. Army, key to Peace" (O Exército dos EUA, chave da paz): "Nenhum exército é chave da paz. Nenhuma nação tem a chave de nada que não seja a guerra. O poder não tem nada a ver com paz. Quanto mais os homens aumentam o poder militar, mais violam e destroem a paz".

Acompanhei e compartilhei com os veteranos da guerra do Vietnã, em particular Brian Wilson e seus companheiros que foram vítimas dessa guerra e de todas as guerras.

A vida tem esse não sei o quê do imprevisto e surpreendente fragrância e beleza que Deus nos deu para toda a humanidade e que devemos proteger para deixar às gerações futuras uma vida mais justa e fraterna, reestabelecendo o equilíbrio com a Mãe Terra.

Se não reagirmos para mudar a situação atual de soberba suicida que está arrastando os povos a abismos profundos onde morre a esperança, será difícil sair e ver a luz; a humanidade merece um destino melhor. Você sabe que a esperança é como o lótus que cresce no barro e floresce em todo seu esplendor mostrando sua beleza.

Leopoldo Marechal, esse grande escritor argentino, dizia que: "do labirinto, se sai por cima".

E creio, Barack, que depois de seguir tua rota errando caminhos, você se encontra em um labirinto sem poder encontrar a saída e te enterra cada vez mais na violência, na incerteza, devorado pelo poder da dominação, arrastado pelas grandes corporações, pelo complexo industrial militar, e acredita ter todo o poder e que o mundo está aos pés dos EUA porque impõem a força das armas e invade países com total impunidade. É uma realidade dolorosa, mas também existe a resistência dos povos que não claudicam frente aos poderosos.

As atrocidades cometidas por teu país no mundo são tão grandes que dariam assunto para muita conversa. Isso é um desafio para os historiadores que deverão investigar e saber dos comportamentos, políticas, grandezas e mesquinharias que levaram os EUA á monocultura das mentes que não permite ver outras realidades.

A Bin Laden, suposto autor ideológico do ataque às torres gêmeas, o identificam como o Satã encarnado que aterrorizava o mundo e a propaganda do teu governo o apontava como "o eixo do mal". Isso serviu de pretexto para declarar as guerras desejadas que o complexo industrial militar necessitava para vender seus produtos de morte.

Você sabe que investigadores do trágico 11 de setembro assinalam que o atentado teve muito de "auto golpe", como o avião contra o Pentágono e o esvaziamento prévios de escritórios das torres; atentado que deu motivo para desatar a guerra contra o Iraque e o Afeganistão, argumentando com a mentira e a soberba do poder que estão fazendo isso para salvar o povo, em nome da "liberdade e defesa da democracia", com o cinismo de dizer que a morte de mulheres e crianças são "danos colaterais". Vivi isso no Iraque, em Bagdá, com os bombardeios na cidade, no hospital pediátrico e no refúgio de crianças que foram vítimas desses "danos colaterais".

A palavra é esvaziada de valores e conteúdo, razão pela qual chamas o assassinato de "morte" e que, por fim, os EUA "mataram" Bin Laden. Não trato de justificá-lo sob nenhum conceito, sou contra todas as formas de terrorismo, desde a praticada por esses grupos armados até o terrorismo de Estado que o teu país exerce em diversas partes do mundo apoiando ditadores, impondo bases militares e intervenção armada, exercendo a violência para manter-se pelo terror no eixo do poder mundial. Há um só eixo do mal? Como o chamarias?

Será que é por esse motivo que o povo dos EUA vive com tanto medo de represálias daqueles que chamam de "eixo do mal"? É simplismo e hipocrisia querer justificar o injustificável.

A Paz é uma dinâmica de vida nas relações entre as pessoas e os povos; é um desafio à consciência da humanidade, seu caminho é trabalhoso, cotidiano e portador de esperança, onde os povos são construtores de sua própria vida e de sua própria história. A Paz não é dada de presente, ela se constrói e isso é o que te falta meu caro, coragem para assumir a responsabilidade histórica com teu povo e a humanidade.

Não podes viver no labirinto do medo e da dominação daqueles que governam os EUA, desconhecendo os tratados internacionais, os pactos e protocolos, de governos que assinam, mas não ratificam nada e não cumprem nenhum dos acordos, mas pretendem falar em nome da liberdade e do direito. Como pode falar de Paz se não quer assumir nenhum compromisso, a não ser com os interesses de teu país?

Como pode falar da liberdade quanto tem na prisão pessoas inocentes em Guantánamo, nos EUA e nas prisões do Iraque, como a de Abu Graib e do Afeganistão?

Como pode falar de direitos humanos e da dignidade dos povos quando viola ambos permanentemente e bloqueia quem não compartilha tua ideologia, obrigando-o a suportar teus abusos?

Como pode enviar forças militares ao Haiti, depois do terremoto devastador, e não ajuda humanitária a esse povo sofrido?

Como pode falar de liberdade quando massacra povos no Oriente Médio e propaga guerras e tortura, em conflitos intermináveis que sangram palestinos e israelenses?

Barack, olha para cima de teu labirinto e poderá encontrar a estrela para te guiar, ainda que saiba que nunca poderá alcançá-la, como bem diz Eduardo Galeano. Busca a coerência entre o que diz e faz, essa é a única forma de não perder o rumo. É um desafio da vida.

O Nobel da Paz é um instrumento ao serviço dos povos, nunca para a vaidade pessoal.

Te desejo muita força e esperança e esperamos que tenha a coragem de corrigir o caminho e encontrar a sabedoria da Paz.

Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz 1980.

Buenos Aires, 5 de maio de 2011

Fonte: Carta Maior

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Sobre a votação do Código Florestal

Trate bem a Terra. Ela não foi doada a você por seus pais. Ela foi emprestada a você por seus filhos. (Provérbio africano)

Provérbio Africano

Não existe um mestre absoluto.
Sempre somos ao mesmo tempo aluno e mestre.
Porque o mestre ensina aos outros,
Mas também aprende dos outros.
                                                            (Chefe de aldeia Dogom)

Saber ler e interpretar

José Ruy Lozano - Gazeta de Cuiabá, 12/05/2011 - Cuiabá MT

Ninguém sabe ler de antemão, e isso não se refere apenas à decifração de códigos, letras e frases, mas sim ao desenvolvimento de capacidades leitoras diversas, como, por exemplo, a de inferir sentidos. Frequentemente, a relevância da leitura para a vida em sociedade é debatida. São várias as preocupações de pais e educadores no que se refere às exigências sociais associadas a ela, seja em função de atividades profissionais que exigem comunicação verbal eficiente e boa redação; ou em função de necessidades mais gerais, relativas à inserção social, o que demanda saber ler diferentes tipos de texto, ou mesmo saber utilizar o nível de linguagem adequado a diferentes situações.
Ainda que existam, hoje, muitas mídias que viabilizam o acesso rápido e irrestrito a informações úteis para a vida cotidiana, o texto escrito é ainda o meio fundamental de obtenção do conhecimento. Isso porque ele oferece ao leitor possibilidades de interpretação e, portanto, maior autonomia. Quando lemos, também construímos os sentidos, pensamos autonomamente, elaboramos nossas indagações e recusamos, confirmamos e/ou redefinimos respostas. O leitor é aquele que reescreve o significado do texto a partir de sua interação com as intenções de quem escreveu. Se a importância da leitura é consensual, a constatação de que nossos filhos leem mal desperta grande inquietação, além do desejo de ajudá-los no processo de aquisição da capacidade de ler com eficiência e inteligência. O primeiro passo para ensinar a ler textos de maior complexidade é justamente o de compreender o quão complexo pode ser, para as crianças e jovens, um texto que para nós, adultos, é relativamente fácil ou óbvio. Nesse processo, não existem obviedades. O que é claro e evidente para mim nem sempre o é para uma criança. Ela detém um repertório mais restrito, tanto de palavras quanto de experiências.
O que nos induz ao próximo passo: ensinar a ler exige a intervenção ou a mediação ativa de quem propõe a leitura, sejam pais ou professores. E tomando o cuidado de não ler para a criança, substituindo sua experiência de leitura. É preciso ler com a criança, questionando-a sobre passagens que ocultem implícitos importantes para a compreensão global do que se lê, além de estabelecer relações de significado que, de outro modo, passariam despercebidas. Assim, estaremos ensinando que ler é mais do que decifrar letras: ler é pensar sobre o que se lê. E isso fará toda a diferença no futuro. Outro elemento importante para permitir o aprendizado desta atividade é possibilitar o acesso da criança à maior variedade possível de textos, em diversas situações sociais de leitura. Ler é algo que se desenvolve por meio da imersão em sua prática, não atividade exercida de modo descontextualizado da vida em sociedade. De acordo com essa visão, o adulto precisa mostrar para a criança como os textos que circulam na sociedade podem ser usados, a fim de que ela compreenda os seus sentidos. Charges ou tirinhas de jornal, por exemplo, muitas vezes não são compreendidas pelos mais novos. "O que tem de engraçado aqui?", perguntam-se. Isso ocorre quando o efeito de humor passa por um dado cultural desconhecido pelo jovem leitor. Esse dado pode ser apenas uma palavra de duplo sentido ou até mesmo um pressuposto que exige o reconhecimento de fatos políticos ou históricos. Propagandas estabelecem relações de sentido que podem ser inferidas de acordo com a intenção daqueles que as produziram e com o público a que se destinam os produtos. Uma notícia pode ser escrita com diferentes intencionalidades, visando a finalidades que não são apenas as de informar. Da mesma maneira, um artigo de opinião pode refletir tendências ideológicas de quem o publica.
Compreender essas relações não é fácil, nem pode ser dado como pré-requisito. Como já se afirmou aqui, ninguém sabe tudo de antemão; ou seja, a criança precisa ser ensinada a ler com profundidade. Ao questionarmos nossos filhos sobre todas essas complexidades, em diversas situações sociais, estaremos evidenciando a eles que ler envolve "um montão de coisas", o que provavelmente os induzirá a ler não somente com maior atenção, mas também de modo mais inteligente. A atitude do adulto diante da leitura deve ser positiva, se ele quiser influenciar o jovem a ler mais e melhor. Essa postura inclui necessariamente um envolvimento afetivo com o que lê. O adulto é quem oferece um modelo de leitura para o aluno-leitor, servindo-lhe de exemplo e espelho. Caso a criança não reconheça a importância da leitura nas atitudes do adulto, seu modelo, qualquer estratégia será em vão. Continuamos ensinando melhor por nossas obras do que por nossos discursos.