Palavras! Palavras e mais palavras.
Do lado de lá e do lado de cá, somente ouvimos e lemos palavras.
Palavras vazias, ocas de conteúdo, inertes e sem sentido.
Do lado de cá choro, lamentações e ranger de dentes expressos em... palavras.
Do lado de lá desfaçatez, mentiras, atitudes e gestos que não vão além das
palavras. E palavras desprovidas de ações não transformam nada.
Há séculos, boa parte de todos nós negros assistimos - é, a palavra é assistir
- passivamente ao extermínio do nosso povo. Poucos de nós fomos oferecer nossos
corpos e mentes à luta contra a opressão a que todos sempre fomos submetidos.
Em nossa suprema maioria deixamos nos levar mental e fisicamente pela pregação
daqueles que nos oprimem e se servem da nossa força.
Sempre nos iludiram com o discurso da não violência, do reconhecimento da lei
como bem superior na preservação dos direitos do cidadão, no reconhecimento do
Estado de direito e no exercício do voto como forma de transformação social.
Tudo isso não passou, passa e passará de conversa que obstrui nossa ação.
Nos iludem a 500 anos e levam nossos votos de felicidade.
A questão que se coloca à população negra todos os dias não é "quantos
leões teremos de matar para sobreviver a mais esse dia?", e sim "de
quantos leões - fardados ou não - escaparemos para sobreviver mais um
dia?"
Sinto que - apesar e por força de toda luta empenhada e desempenhada pelo
movimento negro ao longo da história da população negra nesse país - está posta
à nossa frente uma questão definitiva sobre nosso futuro: o que nós negros
queremos nesse e desse país onde permanecemos a ser tratados como minoria, ou
maioria oculta? Ou deciframos a questão e agimos ou permaneceremos a ser
devorados como os Amarildos e as Claudias; como nossos pais e avós; e como,
provavelmente, serão devorados nossos filhos, netos e bisnetos.
Antes do fim: reconheço a força das palavras e seu poder de gerar consciência,
transmitir conhecimento, possibilitar a organização. Mas, desde quando a
construção de uma sociedade de um povo de iguais, livres e soberanos foi
realizada a troco de blábláblá?
Carecemos de ações contundentes contra a opressão da qual somos - há séculos -
o objeto de desejo.
Devemos - como dizia o poeta - arrancar alegrias ao futuro.
São, tão somente, minhas palavras.