quinta-feira, 19 de maio de 2011

Aproveitadores do falso debate 3!

Se valendo do oportunismo corriqueiro caracteristico de certos segmentos da população, as nossas formosas "zelites", lançando mão de uma polêmica superficial, procriaram diversas manifestações no rádio, TV, jornais, internet, etc., nas quais atribuem ao governo Lula a responsabilidade pelo lançamento do livro “Por uma Vida Melhor”, que integra a coleção Viver, Aprender, direcionada à educação de jovens e adultos. Sugerindo uma suposta e enorme preocupação com a educação em terras tupiniquins, aproveitaram a oportunidade para fuzilar o governo do, agora, ex-presidente. Miraram no que não viram e atingiram o próprio rabo preconceituoso, que de tão exposto já não surpreende mais!

Um falso debate 2? 'A batalha da língua na guerra das culturas'

Maria Alice Setubal* e Maurício Ernica** - Especial para o Estadão.edu - 18 de maio de 2011 - 16h 55

"O fato de um livro aprovado pelo Ministério da Educação (MEC) afirmar que é legítimo, sim, usar modos de falar populares reavivou antigas polêmicas. Como de hábito, várias vozes se levantam, a maioria contrária à posição do livro, e com muita frequência se manifestam com tom carregado de paixões.

Antes de tudo, antecipamos nosso ponto de vista: a escola deve assegurar aos alunos a aprendizagem da variante culta da língua portuguesa, que é a variante usada nos principais debates sobre as questões da vida pública, na produção científica e em grande parte de nossa produção cultural. No que diz respeito a esse objetivo, não se devem fazer concessões de espécie alguma.

Isso posto, cabe-nos dizer que o debate embola uma série de questões diferentes e seria produtivo se pudéssemos ter clareza sobre elas e discuti-las com alguma serenidade.

Primeiro: somos, ainda hoje, culturalmente reféns de uma gramática normativa e de um ideal de correção linguística muito distanciados da norma culta falada e escrita efetivamente praticada. Para ficarmos com uma ilustração simples: de acordo com a gramática normativa e os manuais de redação, deveríamos usar sempre o verbo gostar com a preposição de. Uma pesquisa realizada pelo linguista Carlos Alberto Faraco, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mostra, porém, que jornais de grande circulação e peças de publicidade rompem com essa regra, escrevendo, por exemplo, do jeito que você gosta e não do jeito de que você gosta. Esse é um exemplo simples, mas usual. Todos temos a lembrança de aulas de gramática que nos mostravam que falamos uma língua errada. Na verdade, somos reféns de uma gramática normativa anacrônica e de uma idealização do que seria o modo correto de falar e de escrever, que não reconhece a validade e a adequação sequer da nossa variante culta escrita, tal como praticada de fato.

Segundo: não há uma língua portuguesa única, mas várias. A língua varia na história e nos grupos sociais. As variações não estão apenas no “sotaque” ou no vocabulário das regiões e grupos, estão também nas construções sintáticas. Muitos dizem os livro; há quem pergunte quer ficar aqui mais eu?. Os mineiros dizem estou apaixonado com, os cariocas, tu vai e, os paulistas que alguém aposentou (sem o se). São exemplos simples, mais uma vez. Não estamos falando dos desvios daquele que está aprendendo a língua e se arrisca em hipóteses equivocadas, mas sim de formas de longa duração e consagradas pelo uso. No confronto das variações, temos que o falar de uns é errado segundo as normas de outros. E aqui está um ponto importante: uma dessas variantes é a variante de prestígio, a variante usada pela imprensa, pela ciência, pelo Estado, por boa parte das artes; em suma, é a variante das práticas culturais letradas, a variante culta. A variante culta, mesmo não correspondendo exatamente à norma gramatical, torna-se medida do erro e do acerto das demais variantes. Ora, tomar o seu universo cultural como medida para avaliar a cultura do outro é... em linguagem simples, preconceito.

Terceiro: o desenvolvimento das capacidades de pensamento e raciocínio não está ligado às variantes linguísticas. Bem verdade que a apropriação da língua é o que permite aos seres humanos o desenvolvimento das funções psicológicas. Contudo, isso pode ser feito em qualquer variante linguística. Em suma, é possível ser néscio e obtuso em linguagem culta e ser muito inteligente em uma variante popular, com pouco prestígio, e vice-versa. Aliás, filosofar em alemão, inglês, francês ou russo, por exemplo, só foi possível porque em um dado momento as “línguas bárbaras” foram tomadas pelos filósofos como línguas para a prática da cultura letrada, desbancando o monopólio do velho latim.

Quarto: é importante que a escola reconheça a validade relativa das variantes linguísticas e, igualmente, a existência de uma variante culta. Para muitas crianças originárias dos diversos segmentos das camadas populares de nosso País, a língua da escola é uma língua estrangeira no sentido mais estrito do termo: é língua do outro. Ora, se essa variante, culta e prestigiosa, impõe-se como referência do falar certo, ela exerce, sim, sobre os falantes das outras variantes, uma forma de violência simbólica que nega a validade e a legitimidade do universo cultural dessas crianças e de suas famílias. O pacote só é vendido inteiro: negar a validade das variantes linguísticas é negar a diversidade cultural de nosso País e negar a cultura popular. Contudo, como afirmamos logo no início, é papel da escola ensinar e assegurar a aprendizagem da variante culta. Mas isso não precisa ser feito negando as demais. Pode ser feito, simplesmente, estimulando a existência de cidadãos capazes de falar múltiplas variantes, cidadãos “bilíngues” em sua própria língua.

Quinto: a transposição didática dessas questões teóricas é importante, mas não é uma tarefa simples, nem suficiente. Trata-se de algo que deve ser feito com cuidado, sob o risco de aumentar os mal entendidos. O livro didático deve falar para o aluno e para o professor, frequentemente pessoas que têm nele sua principal fonte de formação e informação. A escrita didática, assim como todas as formas de divulgação, inclusive a jornalística, é necessariamente simplificadora. E aí está o coração do desafio. Deve-se ser teoricamente consistente, devem-se explicitar com clareza e sem dubiedades os objetivos didáticos, em linguagem simples e acessível a um público amplo, muito maior que o público leitor dos jornais de grande circulação. Deve-se tentar ao máximo evitar o risco de ser mal entendido – no caso, de “autorizar” ou “incentivar” a escola a não ensinar a variante culta ou, ao contrário, reforçar os preconceitos contra as variantes lingüísticas populares e os estigmas que pesam sobre os alunos de meios desfavorecidos. É necessário reconhecer, então, que qualquer livro didático, por melhor que seja, possui seus limites. Um deles reside na adequada formação daqueles que os utilizam.

Por fim, cabe-nos reconhecer que as principais decisões sobre a qualidade da educação são de natureza política, mais que técnica. Envolvem disputas de poder sobre os aspectos de nossa cultura que julgamos legítimos e que queremos que sejam transmitidos às novas gerações. Em nosso caso, queremos um país culto e culturalmente diversificado, um país cujos cidadãos se apropriem das formas eruditas da cultura, mas que valorizem a riqueza de nossos legados culturais, inclusive aqueles que nos ligam de modo intenso e vivo ao rico e complexo universo da gente simples e da cultura inventiva de nosso povo."

* PRESIDENTE DO CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM EDUCAÇÃO, CULTURA E AÇÃO COMUNITÁRIA (CENPEC)

** PESQUISADOR DO CENPEC

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,artigo-a-batalha-da-lingua-na-guerra-das-culturas,720978,0.htm

Um falso debate 1 ? - Especialistas comentam polêmica em torno do livro Por Uma Vida Melhor

Fabiana Hiromi


Livro distribuído pelo MEC para turmas de EJA reconhece variantes linguísticas distintas da norma culta

Teve início na semana passada polêmica em torno do livro “Por uma Vida Melhor”, que integra a coleção Viver,Aprender, direcionada à educação de jovens e adultos. A obra, previamente avaliada por uma comissão de especialistas, foi distribuída a 484.195 alunos de 4.236 escolas de todo o País pelo Ministério da Educação, por meio do Programa Nacional do Livro Didático para essa modalidade.


O trecho do livro que gerou debates acalorados na imprensa trata das diferenças entre a língua oral e a culta. O texto afirma que é possível falar, dependendo da situação, “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. Mas adverte que “corre-se o risco de ser vítima de preconceito lingüístico”. E conclui que “o falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião”.

No Portal do IG, o primeiro a levantar a polêmica, a questão foi abordada em notícia do dia 12/05 intitulada “MEC usa livro que ensina aluno a falar errado”. Ouvido pela Folha de S.Paulo, o linguista Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, critica o material: "Se o professor diz que o aluno pode continuar falando 'nós vai' porque isso não está errado, então esse é o pior tipo de pedagogia, a da mesmice cultural", diz. Em editorial da edição desta quarta (18/05), O Estado de S.Paulo acusa o MEC de "falta de rigor no processo de escolha" das publicações didáticas que distribui e conclui que "ao impor a pedagogia da ignorância a pretexto de defender a linguagem popular, as autoridades educacionais prejudicam a formação das novas gerações".

Em nota, a Ação Educativa, ONG responsável pela coordenação pedagógica da publicação, reitera que “a abordagem é adequada, pois diversos especialistas em ensino de língua, assim como as orientações oficiais para a área, afirmam que tomar consciência da variante linguística que se usa e entender como a sociedade valoriza desigualmente as diferentes variantes pode ajudar na apropriação da norma culta”.

Defende ainda que “uma escola democrática deve ensinar as regras gramaticais a todos os alunos sem menosprezar a cultura em que estão inseridos e sem destituir a língua que falam de sua gramática, ainda que esta não esteja codificada por escrito nem seja socialmente prestigiada”.

A coordenadora geral da Ação Educativa, Vera Masagão, critica o modo como o assunto vem sendo abordado na imprensa. “Os jornalistas devem promover um debate educativo, que não leve os professores a um retrocesso no ensino da língua. Também é importante que esse debate seja contextualizado e não baseado em um trecho da obra, e sem que os autores sejam desrespeitados, que é o que vem acontecendo na imprensa. Vale enfatizar que o livro é voltado para adultos e em nenhum momento ensina a falar ou escrever errado”, afirma.

“Os comentários e opiniões sobre a questão sequer levam em consideração que se trata de um livro de EJA. Foi se produzindo uma série de confusões sobre o tema. Em momento algum, o livro está questionando se a norma culta deve ser ensinada. O debate foi evoluindo de uma forma que as questões ficaram emboladas, contribuindo muito pouco para esclarecer o assunto”, analisa o pesquisador do Cenpec, Maurício Ernica.

O MEC também se pronunciou oficialmente em nota, esclarecendo que “os livros apresentam objetivos coerentes e compatíveis com as Diretrizes Gerais da Educação de Jovens e Adultos. Propõem uma abordagem que considera uma situação de interlocução socialmente contextualizada, procurando levar em conta os saberes prévios dos alunos”. Afirma ainda que a obra segue os parâmetros curriculares nacionais, de 1997, que recomendam que “a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma ‘certa’ de falar, a que parece com a escrita; e o de que a escrita é o espelho da fala”.

Para o professor do Departamento de Linguística da PUC-SP, Egon Rangel, trata-de se uma “falsa polêmica”, já que o livro segue rigorosamente as orientações oficiais para o ensino de Língua Portuguesa. “Os PCNs, as diretrizes curriculares, todos esses documentos afirmam que a variação lingüística deve ser objeto de ensino e que a norma culta deve ser introduzida na escola como uma das variantes da língua portuguesa, dentre outras”, lembra. “O livro faz exatamente isso: ensina a norma culta, esclarecendo que ela é uma das variantes da língua e que a variante de origem que o aluno eventualmente tenha – uma variante popular, por exemplo – é tão legítima quanto a norma culta”, salienta.

Um outro ponto levantado pelo pesquisador do Cenpec importante nesse debate está relacionado a um certo anacronismo da nossa gramática normativa. “Existe uma idealização da gramática, documentos que normatizam a língua e não correspondem à língua falada por ninguém. Diante disso, parece que todos erramos. Isso não é levado em conta nesse debate. Segundo ponto: a língua varia entre os grupos sociais e as regiões. E não é só no sotaque ou no vocabulário, mas nas construções que remetem a estruturas antigas da língua e a suas misturas com outras línguas. A língua não é homogênea. Cabe reconhecer isso. A variante culta não é a única”, enfatiza Ernica.

Por fim, ele ressalta ainda o viés político dessa polêmica. "Envolve quais saberes legitimamos, queremos ensinar, e o que consideramos menos importante”, analisa. “A posição do Cenpec desde sempre é a de reconhecer a diversidade cultural, sem perder de vista a importância que a cultura letrada tem”.

Fonte: http://cenpec.org.br/noticias/ler/Livro-distribu%C3%ADdo-pelo-MEC-para-turmas-de-EJA-reconhece-variantes-lingu%C3%ADsticas-distintas-da-norma-culta