terça-feira, 2 de agosto de 2011

Poema das sete faces

Carlos Drummond de Andrade


Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens

que correm atrás e mulheres

A tarde talvez fosse azul

não houvesse tantos desejos.



O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna meu Deus,

pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.



O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás do óculos e do bigode.



Meu Deus, porque me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.



Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

Seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo

mais vasto é meu coração.



Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

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